LaLi...mulher...poema... - UOL Blog



23/12/2008

NATAL À BEIRA-RIO

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
A trazer-me da água a infância ressurrecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
Que ficava, no cais, à noite iluminado...
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

(David Mourão-Ferreira, Obra Poética 1948-1988)

EU.

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13/12/2008

Sonho nosso


minha LaLi,

você, meu sonho de mil segredos

... adormeci

corpo vagueia pela saudade

murmúrios...

tua respiração

sinto bater no meu rosto

sono profundo

... num oceano infinito

mar beija a areia

semeia em mil espumas

emoção...

ah! emoções...

... êxtase

duas gaivotas

... brotam da areia

nos completamos

... meu amor

criamos raizes

em brisa...

... n(o)mar

 

EU. e LaLi

meu Eu.

você meu mar amado

agitado...silencioso

faminto...

que com suas ondas

me carrega

me toma e possue

e por elas

com amor,

desejo...ternura...

vamos de encontro

ao infinito...sempre

para gerar...

re-nascer...

n(o) mar e em brisa

seus e meus...

amor(es) de mar...

você... que foi muito

esperado, desejado

com sua...terra...


LaLi e EU.



por... LaLi.
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29/11/2008

 

O sono: um sonho, um amor

 

Corações inquietos

Percorrendo os caminhos do tempo

Silêncio...

... eterna busca

Encontro com o mar profundo

Ah! ânsia incontida...

Um abraço

Acolhendo a alma nua

 

Adormecemos, voamos no sonho

Navegamos os maiores desejos

Homem, Mulher

Terra, Mar

Indomável vontade

Alimentada pelo fogo da paixão

No amor...

... em amor

Fecham-se os olhos

Abrem-se em flor

Selvagens aromas

Gemidos se espalham

Estremecem...

 

Um suave vento

Ao som do mar

Cai sobre nós - o tempo

O mar profundo..

 

Mar:

- Dormi com a terra

 

Terra:

- Dormi com o mar

*

EU. e LaLi

LaLi e EU.

Nós...

***

 

Amor e Vida

  

Impetuoso e inquieto


Mar-Oceano salgado


que insinuoso se lança


sobre a Terra,


chamando, querendo,


tomando-a para si,


tendo necessidade


de amor e vida.

 

Intensa e plena Terra,


querendo vida


do amor de


seu Mar,


seios expostos


ventre aberto


à espera da vida


que é aguardada


para coroar essa mistura.

 

Misturas que são


Brisa-Omar,


vidas geradas


de Terra-Mar,


feitos com imenso amor,


intensos chamados,


intensas entregas


e nunca ausências

 *

 LaLi e EU.

EU. e LaLi

Nós...

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24/11/2008

 

Nosso desejo

Numa viagem de fantasia
Ao compasso da ironia
Envolve o feitiço das águas
Numa longa espera...
... longa
Longa...
... como se fosse eterna!
Encontro...
... água inunda a terra
Misturar-se-ão, simplesmente
... se a terra deixar-se beijar pela água

EU.

 

sentidos...

palavras morrem
caminho solitário
por horas
dia frio
opaco
noite
breu
corpo
sem carinho
boca
sem beijos
riso acabado
falta sua
saudades...
lágrimas
ardem olhos, rosto...
amor que resiste
vivo, vibra
sentidos
luta...
é infinito...
imenso...
é nosso
juntos
nele sempre
mesmo
em dia ou horas
como essas.

LaLi

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10/11/2008

 

A menina selvagem

A menina selvagem veio da aurora
acompanhada de pássaros,
estrelas-marinhas
e seixos.
Traz uma tinta de magnólia escorrida
nas faces.
Seus cabelos, molhados de orvalho e
tocados de musgo,
cascateiam brincando
com o vento.
A menina selvagem carrega punhados
de renda,
sacode soltas espumas.
Alimenta peixes ariscos e renitentes papagaios.
E há de relance, no seu riso,
gume de aço e polpa de amora.

Reis Magos, é tempo!
Ofereci bosques, várzeas e campos
à menina selvagem:
ela veio atrás das libélulas.

Henriqueta Lisboa

La caricia perdida

Se me va de los dedos la caricia sin causa,
se me va de los dedos... En el viento, al rodar,
la caricia que vaga sin destino ni objeto,
la caricia perdida, ¿quién la recogerá?

Pude amar esta noche con piedad infinita,
pude amar al primero que acertara a llegar.
Nadie llega. Están solos los floridos senderos.
La caricia perdida, rodará... rodará...

Si en el viento te llaman esta noche, viajero,
si estremece las ramas un dulce suspirar,
si te oprime los dedos una mano pequeña
que te toma y te deja, que te logra y se va.

Si no ves esa mano, ni la boca que besa,
si es el aire quien teje la ilusión de llamar,
oh, viajero, que tienes como el cielo los ojos,
en el viento fundida, ¿me reconocerás?

Alfonsina Storni

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01/11/2008


Para você, LaLi

 

O Início: uma rosa de fátima

 

Tempestade

Corre para o mar

Sons que te fazem lembrar

Estremece...

Vem solta

Solta em teus sonhos

Vem no vento

Envolta em suave perfume

E no afago do vento...

... calmaria invade tempestade

 

O Caminhar: para o amor

 

Chamamento

Uma viagem para o mar

Ah, a água... o feitiço das águas

... a eterna viagem

O sonho para sonhar

Invade teu peito de água

Agita-se

Amor, ternura, canção

A dança da paixão

Seduz o coração

Olhos presos...

... prende teu coração no meu

Uma palavra vã... uma sílaba na tua boca

... amo

Mar...

... amor

 

O Renascer: Omar

 

A certeza

Começo de um novo amanhã

Pés descalços na viagem para o mar

Mil lembranças

Paixão em desvario

... o toque

Cheio de encantos...

... tanto amor na quietude dos ventos

Grávida de encantos

A canção banha o amor

Vem do mar

... alma ardente

OMAR...

... a cria

Chora...

... acorda a vida

***

beijo por cada tempo

... por cada fase

nosso amor... aprisionados no sal

EU.

********

...meu EU... sentindo tudo que é nosso em seus escritos, que são meus, meus presentes pelo meu dia, amo vc...sua LaLi



por... LaLi.
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25/10/2008

Hoje posso dizer que sei você...
sei dos seus sentimentos.
Conheço as suas emoções...seus silêncios.
Homem vida poema,você...EU.

LaLi

bjus para vc...sempre

No teu poema

No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida.
No teu poema
Existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E aberta, uma varanda para o Mundo.

Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da Senhora da Agonia
E o cansaço do corpo que adormece em cama fria.
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva, a luta de quem cai ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonos inquietos de quem falha.
No teu poema
Existe um cantochão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano.

Existe um rio
O canto em vozes juntas, vozes certas
Canção de uma só letra e um só destino a embarcar
O cais da nova nau das descobertas.
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco, ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo mais que ainda me escapa
E um verso em branco à espera... do futuro.


José Luís Tinoco

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12/10/2008

Quisera desabar sobre ti
como chuva forte.
As coisas são boas quando destroem
e se deixam destruir.
Só assim eu venho:
eco de profundas grutas,
nada leve
uma irrealidade
estar aqui.
Só sei amar assim
- e é assim que te lavro, deserto.

olga savary

vc...bjus..



por... LaLi.
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27/09/2008

Se voltássemos no tempo,
eu te amaria como amo hoje,
intensamente...
Se não fosse por você,
seria por mim e
se não fosse por mim,
seria por nós.

LaLi

você meu EU.

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16/09/2008


Nosso Ritual


Pela terra do teu corpo
Eu te invoco e tu chegas
Exalta-me o sangue
Crava-me intenso
Deixo-me em ti

Vesti-me de terra
Eu...o mar, insano de desejo
Enrolas em mim, morde-me a boca
Língua ávida e quente
Leva-me à loucura...

Gritos do mar
Sensações que vêm da alma
Sentidas...
Vividas...
Guardados na terra do seu corpo
Exigindo ser bebido

...o ritual se cumpre
Teu ventre recolhe
...a água, o sal
Deixo-me em ti

EU.

Años (Pablo Milanés)

El tiempo pasa
Nos vamos poniendo viejos
El amor no nos reflejo como ayer
En cada conversacion
Cada beso, cada abrazo
Se impone siempre um pedazo de razón

Passam os anos
E como muda o que eu sinto
O que ontem era amor
Vai se tornando outro sentimento
Porque anos atrás
Tomar tua mão, roubar-te um beijo
Sem forçar o momento
Fazia parte de uma verdade ...

El tiempo pasa
Nos vamos poniendo viejos
El amor no nos reflejo como ayer
En cada conversacion
Cada beso, cada abrazo
Se impone siempre um pedazo de razón

Vamos viviendo
Viendo las horas que van passando
Las viejas discussiones
Se van perdiendo entre las razones ...
A todo dices que si
A nada digo que no
Para poder construir
Essa tremenda harmonia
Que pones viejos los corazones

El tiempo pasa
Nos vamos poniendo viejos
El amor no nos reflejo como ayer
En cada conversacion
Cada beso, cada abrazo
Se impone siempre um pedazo de razón

Vamos vivendo
Vendo as horas que vão passando
As velhas discussões
Vão se perdendo entre as razões
A tudo dizes que sim
A nada digo que não
Para poder construir ...
Esa tremenda harmonia
Que pone viejos los corazones

O tempo passa
Nos vamos poniendo viejos
El amor no nos reflejo como ayer
En cada conversacion
Cada beso, cada abrazo
Se impone siempre um pedazo de razón

***

..nosso..seu..meu...amor...lindo.

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07/09/2008

Espelho D'agua

Terra
Água
Acende o dia...
Doce canto quebra o silêncio
Silêncio perdido
Em colorido sentimento
Agita-se
Renasce em teu olhar:
- Raio de magia
Construo esse sonho
Em saudosa manhã
Solta-se da terra
Calma água
Apenas o feitiço...mistura molhada
Manhã de anseios
Espelho que te olha
...mistura molhada

EU.

Bjus nossos

Arranco o amado distante do meu corpo e me liberto da
dor da ausência ou deixo que sua luz, tão forte quanto rara,
me alimente os sonhos de calor?
Léa Waider

... E de carícia em carícia formou-se uma folhagem
e o tronco tenso da árvore no próprio corpo dela....
António Ramos Rosa

... e morro eu de suspiros
num prazer inigualável,
quando te cavalgo
eu, tua fêmea e tu
meu macho indomável...
Asta Vonzodas

bjus...vc sempre

LaLi



por... LaLi.
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31/08/2008

Vem a dormir comigo: não faremos amor, ele nos fará."

Julio Cortázar

***

vc...LaLi..bjus

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25/08/2008

"É ao lusco-fusco que crescem os medos de separação,
Os beijos nascem mais sôfregos,
Os abraços mais apertados
E a ansiedade mais desesperada.
Só as mãos entrelaçadas estão quietas,
Como que tentando parar o tempo,
O sonho de ter... de ser..."

Maria Branco

beijo para vc...Lali

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15/08/2008

Deixa-te estar embalado no mar nocturno
onde se apaga e acende a salvação...
Deixa-te estar na exaltação dos sonhos sem forma:
com ela caminha o horizonte dos meus braços abertos,
e por cima do céu estão meus olhos pregados, guardando-te.
Deixa-te balançar entre a vida e a morte, sem nenhuma saudade:
deslizam os astros na abundância do tempo que cai:
nós somos pequenos como um ponto de pólen rodando entre os mundos.
Deixa-te estar neste embalo de água gerando círculos...
Nem é preciso dormir para a imaginação desmanchar-se em figuras
ambíguas...
Nem é preciso fazer nada para se estar na alma de tudo...
Nem é preciso querer mais, - que vem de nós um beijo eterno
e afoga a boca da vontade e os seus pedidos...

Cecília Meirelles



por... LaLi.
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27/07/2008


" Gosto e preciso de ti
mas quero logo explicar
não gosto porque preciso
preciso sim por gostar"

Mário Lago

bjus..LaLi

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13/07/2008

Canção

Levas um manto
de flores tecido;
a trama foi feita
de ouro aos fios;
as franjas atadas
por esta ternura,
finas, seguras
das minhas pupilas.

Índios Quíchuas-América do Sul

bjus...LaLi



por... LaLi.
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21/06/2008

Em busca do Amor

O meu Destino disse-me a chorar:
"Pela estrada da Vida vai andando,
E, aos que vires passar, interrogando
Acerca do Amor, que hás-de encontrar."
Fui pela estrada a rir e a cantar,
As contas de meu sonho desfiando...
E noite e dia, à chuva e ao luar,
Fui sempre caminhando e perguntando...
Mesmo a um velho eu perguntei: "Velhinho,
Viste o Amor acaso em teu caminho?"
E o velho estremeceu... olhou... e riu...
Agora pela estrada, já cansados,
Voltam todos p'ra trás desanimados...
E eu paro a murmurar: "Ninguém o viu!..."

Florbela Espanca

bjus...LaLi

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04/06/2008


Cantar me enlouquece

Quando me ordenas cantar, parece que o meu coração vai arrebentar-se...
Pensei que poderia te pedir a grinalda de flores que levas no pescoço...

Essa que ficou sempre na profundidade do meu ser...

A minha libertação...
Daqui por diante eu me expressarei em sussurros...

Cantar me enlouquece...

Quando me ordenas cantar,
parece que o meu coração vai arrebentar-se
de orgulho. Então contemplo a tua face e as
lágrimas me vêm aos olhos.

Tudo o que é duro e dissonante em
minha vida se dissolve em única e doce
harmonia, e a minha adoração abre as
suas asas, como um pássaro alegre voando
sobre o mar.

Sei que tens prazer no meu canto.
Sei que posso chegar à tua presença apenas
como um cantor.

Com a ponta da asa imensamente
aberta do meu canto eu roço os teus pés,
que eu jamais poderia querer alcançar.

Embriagado pela alegria de cantar,
esqueço a mim mesmo e te chamo amigo,
tu que és o meu Senhor.

Pensei que poderia te pedir a
grinalda de flores que levas no pescoço,
mas não me atrevi. Fiquei esperando pela
manhã, quando tivesses ido embora, para
encontrar pedaços dela no leito. E fiquei na
madrugada feito mendiga, procurando
uma ou duas pétalas caídas.

Coitada de mim, o que foi que
encontrei? O que me restou do teu amor?
Nem flor, nem perfume, nem jarro de água
perfumada... Apenas a tua espada
poderosa, flamejante como chama e pesada
como raio na tempestade. A luz jovem da
manhã entra pela janela e se derrama em
teu leito. O pássaro da manhã começa a
cantar, e me pergunta: "Mulher, o que é
que encontraste?" Não, não foi uma flor,
nem perfume e nem jarro de água
perfumada. Encontrei apenas a tua espada
poderosa.

Sento-me e fico cismando, admirada
com essa tua dádiva. Não acho lugar onde
escondê-la. Tenho vergonha de usá-la, tão
frágil sou, e ela me fere quando eu a aperto
contra o peito. Mesmo assim, porém, eu
levarei no meu coração esse honroso fardo
de dor, que é a tua dádiva para mim.

Doravante nada mais temerei neste
mundo, e tu conquistarás a vitória em
todas as minhas lutas. Deste-me a morte
por companheira, e eu vou coroá-la com a
minha vida. A tua espada está comigo para
cortar as minhas amarras, e nada mais
temerei neste mundo.

Doravante eu abandono todos os
adornos fúteis. Senhor do meu coração,
não vou mais ficar esperando ou me
desesperando pelos cantos, e nunca mais
vou ser tímida ou caprichosa. Deste-me
como ornamento a tua espada. Não preciso
mais dos enfeites de boneca.

Essa que ficou sempre na
profundidade do meu ser, no crepúsculo de
vislumbres e percepções momentâneas; essa
que jamais retirou seus véus na luz da
manhã, essa irá ser a minha última
oferenda a ti, meu Deus, envolta na minha canção final.

As palavras a cortejam, mas não conseguiram vencê-la, e a persuasão inutilmente estendeu para ela os seus braços ansiosos.

Vaguei de país em país, conservando-a
no íntimo do meu coração, e ao redor
dela a minha vida ergueu-se e caiu, ao
mesmo tempo forte e frágil.

Embora habite sozinha e afastada, ela sempre reinou sobre todos os meus pensamentos e ações, sobre todos os meus sonos e sonhos.

Muitos bateram à minha porta,
perguntaram por ela, e foram-se embora,
sem esperança.

Ninguém no mundo conseguiu vê-la face a face, e ela continua em sua solidão,
à espera do teu reconhecimento.

A minha libertação, para mim, não está
na renúncia. Sinto o abraço da liberdade
em mil laços de prazer.

Daqui por diante eu me expressarei
em sussurros...
...Gastei muitas e muitas horas na luta
entre o bem e o mal. Mas agora o prazer do
meu companheiro de jogos nos dias vazios
é atrair o meu coração para o seu. E eu
não compreendo por que esse repentino
convite para não sei qual inútil
inconseqüência!

Cantar me enlouquece, e se eu me
desfizesse todo num vôo de canção, nada
me pesaria tanto...

RABINDRANATH TAGORE

Tradução de Ivo Storniolo

...



por... LaLi.
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15/05/2008


"Ontem ouvi-te silenciosamente,

ainda hoje as palavras ecoam dentro de mim."

Charles de la Folie



por... LaLi.
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19/04/2008


"O estúpido não esquece e não perdoa. O ingênuo esquece e perdoa. O sábio perdoa mas não esquece."

Thomas Szasz(nascido em 1920) Professor de Psiquiatria na State University of New York



por... LaLi.
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30/03/2008


ENTRE AS COLINAS

Entre as colinas,quando vos sentardes à sombra fresca dos álamos brancos, partilhando da paz e da serenidade dos campos e dos prados distantes,então que vosso coração diga em silêncio:
"Deus repousa na Razão".
E quando bramir a tempestade,e o vento poderoso sacudir a floresta, e o
trovão e o relâmpago proclamarem a majestade do céu,então que vosso
coração diga com temor e respeito:
"Deus age na Paixão".
E já que sois um sopro na esfera de Deus e uma folha na floresta de Deus,também devereis descansar na razão e agir na paixão.

(Khalil Gibran)

bjus....LL

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12/03/2008


Aprende a pagar o bem com o bem
e o mal com a justiça.
Se pagares o mal com o bem, com
o que pagarás o bem?

(Confúcio)



por... LaLi.
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24/02/2008

Aqui. Hoje.

Jorge Luis Borges


Já somos o esquecimento que seremos.
A poeira elementar que nos ignora
e que foi o ruivo Adão e que é agora
todos os homens e que não veremos.
Já somos na tumba as duas datas
do princípio e do término, o esquife,
a obscena corrupção e a mortalha,
os ritos da morte e as elegias.
Não sou o insensato que se aferra
ao mágico sonido de teu nome:
penso com esperança naquele homem
que não saberá que fui sobre a Terra.
Embaixo do indiferente azul do céu
esta meditação é um consolo.

(Tradução: Charles Kiefer)

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07/02/2008


"Princípios da Eficiência: não temer o futuro nem idolatrar o passado. O insucesso é apenas uma oportunidade de começar de novo com mais inteligência. O passado só nos serve para mostrar nossas falhas e fornecer indicações para o progresso no futuro."
Henry Ford

"Plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores. E você aprende que realmente pode suportar, que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida!"
William Shakespeare



por... LaLi.
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27/01/2008

Ninguém pode construir em teu lugar
as pontes que precisarás passar,
para atravessar o rio da vida
- Ninguém, exceto tu, só tu.
Existem, por certo, atalhos sem números,
e pontes, e semideuses que se oferecerão
para levar-te além do rio;
mas isso te custaria a tua própria pessoa;
tu te hipotecarias e te perderias.
Existe no mundo um único caminho
por onde só tu podes passar.
Onde leva?
Não perguntes, segue-o.

Nietzsche



por... LaLi.
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19/12/2007


..entre tantos que li e leio..esse que escolhi...felicidades a todos vcs...sempre...LaLi

Soneto de Natal

Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto . . . A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"

Machado de Assis

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14/12/2007


...um poema de Ondjaki.

penúltima vivência


quero só
o silêncio da vela.
o afogar-me
na temperatura
da cera.
quero só
o silêncio de volta:
infinituar-me
em poros que hajam
num chão de ser cera.



por... LaLi.
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29/11/2007

Bocage...entre a razão e a emoção...

“Sobre essas duras, cavernosas fragas...”

Sobre estas duras, cavernosas fragas,
Que o marinho furor vai carcomendo,
Me estão negras paixões n’alma fervendo
Como fervem no pego as crespas vagas:
Razão feroz, o coração me indagas,
De meus erros a sombra esclarecendo,
E vás nele (ai de mim!) palpando, e vendo
De agudas ânsias venenosas chagas:
Cego a meus males, surdo a teu reclamo,
Mil objetos de horror co’a idéia eu corro,
Solto gemidos, lágrimas derramo:
Razão, de que me serve o teu socorro?
Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;
Dizes-me que sossegue, eu peno, eu morro.

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24/11/2007

A folha do choupo

Tremia tanto que o vento a levou
tremia tanto como não a levaria o vento
lá longe
um mar
lá longe
uma ilha ao sol
e as mãos apertando os remos
morrendo no momento em que o porto apareceu
e os olhos fechados
em anémonas do mar.
Tremia tanto tanto
procurei-a tanto tanto
na cisterna com os eucaliptos
na primavera e no verão
em todas as nuas florestas
meu deus procurei-a.

XXIII

Um pouco mais
e veremos florescer as amendoeiras
os mármores brilharem ao sol
o mar a ondear
um pouco mais
para nos levantarmos um pouco mais alto.

Yorgos Seferis poeta grego (1900-1971)


beijos...

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08/11/2007


“... Por fim amamos o desejo, e não o desejado.”

Nietzsche


beijos e sejam benvindos(as)...



por... LaLi.
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28/10/2007

“Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo”

Sophia de Mello B. Andresen

Nenhum homem é uma ilha, todo homem
é um pedaço de um continente, uma parte do todo.
A morte de qualquer homem diminui - me,
porque a humanidade me contém.
Por isso nunca pergunte por quem os sinos dobram,
é por si que eles dobram.

John Donne

E quando olho no céu arder
As estrelas
Digo pensando para mim:
Para quê tantas candeias?
Que faz o ar infinito,
E aquele profundo
infinito sereno? Que quer
dizer esta
solidão imensa? E eu que
sou?

Giacommo Leopardi

Tão Longe

Desta memória eu quereria dizer...
Tão apagada agora... quase nada resta
porque ficou tão longe, nos meus anos primeiros de ser homem.
Uma pele como de jasmim... Na noite
de Agosto... Era de Agosto?... Mal relembro
os seus olhos... Eram, suponho, azuis...
Ah sim, azuis. Azuis como safira.

KONSTANDINOS KAVAFIS (Grécia,1863 -1933)
tradução de Jorge de Sena

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14/10/2007

Caminho pelo acaso dos meus muros,
buscando a explicação de meus segredos.
E apenas vejo mãos de brando aceno,
olhos com jaspes frágeis de distância,
lábios em que a palavra se interrompe:
medusas da alta noite e espumas breves.
Uma parábola invisível sabe
o rumo sossegado e vitorioso
em que minha alma, tão desconhecida,
vai ficando sem mim, livre em delícia,
como um vento que os ares não fabricam.
Solidão, solidão e amor completo.
Êxtase longo de ilusão nenhuma.

Cecília Meireles

Meu Deus, me dê a coragem

Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar.

Clarice Lispector



por... LaLi.
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21/09/2007

Encantação da Primavera

Mario Quintana

Brotam brotinhos na tarde feita
Só de suspiros:
O amor é um vírus...
Apenas o general de bronze continua de bronze!
O vento desrespeita todos os sinais do tráfego.
Velhinhos de gravata borboleta
Sobem e descem como autogiros.
O guarda de trânsito virou catavento.
As mulheres são de todas as cores como esses
                     manequins expostos nas vitrinas,
E onde é que estão, me conta, as tuas esperanças
                                                                mortas?!
Lá vão elas – tão lindas – vestidas de verde
Como Ofélias levadas pelos rios em fora
Enquanto eu nem me atrevo a olhar para  o alto:
                                                     repara se não é
O Espírito Santo que vem descendo em lento vôo
E até ele, até Ele, deve estar assim, – todo irisado
Como os olhos das crianças, como as maravilhosas
                                                       bolinhas-de-gude!

 

Quando Vier a Primavera

Alberto Caeiro 

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. 
O que for, quando for, é que será o que é.

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13/09/2007

Aurora

A poesia não é voz - é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho de cada um, expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:
vôo sem pássaro dentro.

Adolfo Casais Monteiro(1908-1972)

Todas as vidas

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...
Vive dentro de mim
a lavadeira do a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d'água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro. Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheda de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
- Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos.
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida -
a vida mera das obscuras.

Cora Coralina(1889-1985)



por... LaLi.
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20/08/2007

A morte dele separa-nos. A minha morte não nos voltará a unir. As coisas são simplesmente assim. Foi já suficientemente bom que a vida nos tenha dado tantas oportunidades de acordar um para o outro!

Simone de Beauvoir, dedicado a Jean Paul Sartre

Que assim te afague...

Que assim te afague, ó meu Amor, e te ouça
A voz divina --- como é possível?!
Impossível parece sempre a rosa,
O rouxinol inconcebível.

Goethe

É o êxtase langoroso

É o êxtase langoroso
É a fadiga amorosa
São todos os arrepios do bosque
Entre os abraços das brisas.
E para o lado das inquietas ramagens
Há um coro de pequenas vozes.
Oh fresco e frágil murmúrio
Tudo chilreia e assusta
Assemelha-se ao doce grito
a aspirar da agitação da erva...
Dirias, sob um redemoinho d’água
Um surdo rolar de seixos.
A alma a lamentar-se
Nessa queixa dormente
É a nossa, não é?
É a minha, dize, é a tua,
d’onde se exala a humilde antífona,
Tão baixinho, nesta noite morna?

Paul Verlaine

beijos...££

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02/08/2007

Dime

Dime por favor donde estás,
en que rincón puedo no verte,
dónde puedo dormir sin recordarte
y dónde recordar sin que me duela.
Dime por favor dónde pueda caminar
sin ver tus huellas,
dónde puedo correr sin recordarte
y dónde descansar con mi tristeza.
Dime por favor cuál es el cielo
que no tiene el calor de tu mirada
y cuál es el sol que tiene luz tan sólo
y no la sensación de que me llamas.
Dime por favor cuál es el rincón
en el que no dejaste tu presencia.
Dime por favor cual es el hueco de mi almohada
que no tiene escondidos tus recuerdos.
Dime por favor cuál es la noche
en que no vendrás para velar mis sueños…
Que no puedo vivir porque te extraño
y no puedo morir porque te quiero.

Jorge Luis Borges

beijos...



por... LaLi.
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01/07/2007


"Não há promessas para amarrar o futuro. Há confissões de amor para celebrar o presente"...

"....eu sei que vou te amar
por toda a minha vida eu vou te amar
em cada despedida eu vou te amar
desesperadamente eu sei que vou te amar..."

(Rubem Alves / Vinícius de Morais)

"Vontade preguiçosa de apanhar meus nervos
e fechar os meus olhos, como que cansado de olhar...
e dormir, mas dormir esse sono das pedras que não podem sonhar...
ser folha, folha morta, amarela, caindo embalada pelo ar...
barco solto, sem leme, sem vela,sem nada ao sabor inconstante do mar a
boiar...
Vontade preguiçosa de encostar a vida num canto, para descansar...
E soltar-me em mim mesmo, e soltar-me, e cair e deixar-me ficar,
sem ter vontade ao menos para bocejar...
.............................................................
Ah! ...
Vontade preguiçosa de não terminar estes versos morrendo em ar...em ar...em
ar..."

(J.G. de Araújo Jorge)

para vc...

"SONHO"

"Penso que devo ter adormecido por algum tempo
Pois quando acordei tinhas vindo e partido.
Apenas algumas flores permaneciam ¿
Flores que não podiam sequer dizer quem eram...
E uma fragrância vaga e suave no ar.
Esta noite tenho de sonhar um sonho mais longo
Para que as flores falem
E a sua fragrância estenda uma trémula ponte
Entre nós."

(P.S. REGE (1910-1978)-Trad. Cecília Rego Pinheiro)



por... LaLi.
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24/06/2007

AFORISMOS

Se de noite chorares pelo sol,
não verás as estrelas.

.....

Se não tens fome,
não deites a culpa à comida.

.....

Lemos mal o mundo,
e depois dizemos
que ele nos engana.

.....

Fruto, estás tão longe de mim!
- Flor, estou no teu coração!

.....

As raízes
são ramos debaixo da terra;
os ramos, raízes no ar.

.....

O pássaro
julga que fará bem ao peixe
dar uma volta pelo céu.

.....

É fácil falar claro
quando não se vai dizer
toda a verdade.

.....

Se fechares a porta
a todos os erros,
deixarás a verdade de fora.

.....

- «Dizem os sábios
que um dia vos apagareis»,
gritou o pirilampo às estrelas.
As estrelas não responderam.

.....

O que se ocupa demasiado
em fazer o bem,
não tem tempo para ser bom.

.....

- «Perdi a minha gota de orvalho!»
diz a flor ao céu da manhã,
que perdeu todas as suas estrelas.

.....

Deus, no seu amor,
beija o finito;
o homem o infinito.


RABINDRANATH TAGORE
(poeta e filósofo indiano, Prémio Nobel 1913)

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17/06/2007


"Teu corpo de mar..."

Meu mar infinto.
Renasço na fímbria do mar, do teu mar de sargaços,
no teu mar de desencontros e naufrágios
Renasço na tua boca de sal,
No teu cheiro a maresia,
Renasço em cada onda tua, envolta em grinaldas de espumas,
Em véus de saudade"

Maria Branco

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11/06/2007

"A veia bailarina do meu coração sapateia ao som de sua voz!"
(Rods)

..."parou quando estava quase a tocar o meu peito com o seu corpo. Estava tão perto que o ar, que enchia o espaço minúsculo onde eu acabava e ele começava, se tornou carregado"...
(Lily Prior in La Cucina)



por... LaLi.
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27/05/2007

Sou essa flor

Tua vida é um grande rio, vai caudalosamente,
a sua beira, invisível, eu broto docemente.
Sou essa flor perdida entre juncos e achiras
que piedoso alimentas, mas acaso nem olhas.
Quando cresces me levas e morro em teu seio,
quando secas morro pouco a pouco no lodo;
Mas de novo volto a brotar docemente
quando nos dias belos vais caudalosamente.
Sou essa flor perdida que brota nas tuas margens
humilde e silenciosa todas as primaveras.

Alfonsina Storni

 

Despedida

Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranquilo:
quero solidão.
Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? - me perguntarão.
- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.
Que procuras? - Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.
A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?
Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra...)

Cecilia Meireles

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22/05/2007

"Todas as prendas que me deste, um dia,
Guardei-as, meu encanto, quase a medo,
E quando a noite espreita o pôr-do-sol,
Eu vou falar com elas em segredo..."

Florbela Espanca


"Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é."

Alberto Caeiro


"Agora quero dormir. Quero distrair-me, ou seja ler. Da cama olhei em
volta e descobri que o livro que num dia como este eu teria querido ler
não estava ainda escrito(...)" C.Wolf

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02/05/2007

Abro a rosa com pétalas viradas para dentro
de mim, sugando-me o ser com os seus lábios
de veludo. E quando estou dentro da rosa, ouvindo
a música que corre ao longo do caule, num êxtase
de seiva, troco em versos o que a rosa me diz,
sentindo que a rosa se fecha, em botão, para
que o meu ser não saia de dentro dela. Então,
sei que habito o próprio centro do efémero,
enquanto as pétalas vão caindo, uma a uma,
à medida que a rosa se abre, e o sol que entra
para dentro da rosa, empurrando o meu ser
para fora do centro, corre nas suas veias,
como seiva de fogo, até fazer com que outros
botões nasçam, para que me suguem o ser, até
entre mim e a rosa não haver senão a frágil
fronteira de um espinho, em que me pico,
sentindo que a gota de sangue do meu dedo
podia ser a seiva em que a rosa nasce do ser
que a deseja, no instante efémero do amor.

"Rosa com espinho"-Poema de Nuno Júdice
in "As coisas mais simples"



por... LaLi.
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28/04/2007

 


"Todas as prendas que me deste, um dia,
Guardei-as, meu encanto, quase a medo,
E quando a noite espreita o pôr-do-sol,
Eu vou falar com elas em segredo..."

Florbela Espanca

"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!"

Florbela Espanca

"haverá sempre um poema inacabado
apedrejando minha memória
nas claras noites
que você abriu
no escuro do meu peito"

Eliane Malpighi


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10/04/2007

 

"Para te escrever eu antes me perfumo toda." Clarice Lispector

 

A lucidez perigosa

Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.

Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade
é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.

Clarice Lispector

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08/04/2007

 

"Sou um guardador de rebanhos"

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Alberto Caeiro

 

... "Todos os nossos sonhos podem se realizar, se tivermos a coragem de perseguí-los." (Walt Disney)

... "Aquilo que se faz por amor, parece ir sempre além dos limites do bem e do mal." (Friedrich Nietzsche)

... “É muito mais fácil reconhecer o erro do que encontrar a verdade. O erro está na superfície e, por isso, é fácil erradicá-lo. A verdade repousa no fundo e não é qualquer um que consegue chegar até ela.” (Goethe)

... “A verdadeira amizade é como a saúde perfeita, seu valor é raramente reconhecido até que seja perdida...” (Charles Cales Coltoa)

... “A felicidade não é uma estação à qual chegaremos, mas sim uma forma de viajar.” (Margaret Lee Runbeck)

... “Conhecendo-te a ti mesmo, evitas perder um dia. Tu se tornas luminoso para os outros.” (Drugpa Rinpoche)

... “Comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente você estará fazendo o impossível.” (São Francisco de Assis)

... “O mundo não está ameaçado pelas pessoas más, mas sim por aquelas que permitem a maldade.” (Albert Einstein)

... "Não permita que a sua impaciência o afaste do compromisso com a verdade." (Sogyal Rinpoche)

... "Se construíste castelos no ar, não te envergonhes deles; estão aonde devem estar. Agora constrói os alicerces." (Henry David Thoreau)

... "Quem perde seus bens perde muito; quem perde um amigo perde mais; mas quem perde a coragem perde tudo. "(M.de Cervantes)

... "A família que reza unida é capaz de resistir a todas as provações." (Madre Teresa de Calcutá)

... "Jamais te será dado um desejo sem que te seja outorgado o poder de torná-lo realidade." (Richard Bach)

... "Se, em meio às adversidades, persevera o coração com serenidade, com alegria e com paz, isto é amor." (Santa Teresa de Jesús)

... "Tudo é possível até que se prove impossível. E ainda assim o impossível pode sê-lo apenas por um momento." (Pearl S. Buck)

... "Não sobrecarregues os teus dias com preocupações desnecessárias, a fim de que não percas a oportunidade de viver com alegria." (André Luiz)

... "Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina." (Cora Coralina)

... "As drogas roubam da vida as sensações e alegrias que são de certo modo, as únicas razões de se viver." (L.Ron Hubbar)

... "Deus nos concede, a cada dia, uma página de vida nova no livro do tempo. Aquilo que colocarmos nela, corre por nossa conta." (Chico Xavier)

... "A arte da vida consiste em fazer da vida uma obra de arte." (Mahatma Ghandi)

... "Sei que meu trabalho é uma gota no oceano, mas sem ele, o oceano seria menor." (Madre Teresa de Calcutá)

... "Nós aprendemos a voar com os pássaros, a nadar com os peixes, mas não aprendemos a conviver como irmãos." (Martin Luther King)

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02/04/2007


Para você que gosta de vir aqui ler...beijos...

Yo soy aquel a quien atormenta el amoroso anhelo; Acaso, no gravita la tierra? Acaso, toda la materia ¿no es torturada y atraída por la materia
toda? Así el cuerpo mío es atraído por todos cuantos tropiezo o conozco.
* Walt Withman *

Quiero hacer contigo lo que la primavera hace con los cerezos.
* Pablo Neruda *

El amor entra en nuestra vida por los huecos que abre la risa.
* Berna Wang *

... y un segundo es una eternidad como para no estar junto a ti ...
* Juanes *

 

Afectos varios de su corazón,
fluctuando en las ondas de los cabellos de Lisi

En crespa tempestad del oro undoso
nada golfos de luz ardiente y pura
mi corazón, sediento de hermosura,
si el cabello deslazas generoso.
Leandro en mar de fuego proceloso,
su amor ostenta, su vivir apura;
Icaro en senda de oro mal segura
arde sus alas por morir glorioso.
Con pretensión de fénix, encencidas
sus esperanzas, que difuntas lloro,
intenta que su muerte engendre vidas.
Avaro y rico, y pobre en el tesoro,
el castigo y la hambre imita a Midas,
Tántalo en fugitiva fuente de oro.

 

Soneto amoroso

Si dios eres, Amor, ¿cuál es tu cielo?
Si señor, ¿de qué renta y de qué estados?
¿Adónde están tus siervos y criados?
¿Dónde tienes tu asiento en este suelo?
Si te disfraza nuestro mortal velo,
¿cuáles son tus desiertos y apartados?
Si rico, ¿do tus bienes vinculados?
¿Cómo te veo desnudo al sol y al yelo?
¿Sabes qué me parece, Amor, de aquesto?
Que el pintarte con alas y vendado,
es que de ti el pintor y el mundo juega.
Y yo también, pues sólo el rostro honesto
de mi Lisis así te ha acobardado,
que pareces, Amor, gallina ciega.

FRANCISCO DE QUEVEDO

(1580-1645)

Nació en Madrid y recibió una gran formación humanística. Acompañó al Duque de Osuna a Sicilia y, al ser éste designado Virrey de Nápoles, ocupó su Secretaría de Hacienda. Destituido Osuna, Quevedo fue desterrado, pero al morir Felipe II volvió a la Corte. Estuvo preso cuatro anos en León, por su enemistad con el Conde Duque de Olivares. AI caer el valido real, pudo volver a su Torre de Juan Abad, y murió poco después. Es figura principalísima del barroco español. Cortesano, hombre de letras, apasionado y contradictorio. Exploró prácticamente todos los temas y géneros de la época.



por... LaLi.
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18/03/2007

OS DEGRAUS

Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo..

Mario Quintana - Baú de Espantos

POEMINHA SENTIMENTAL
 
O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.

Mario Quintana - Preparativos de Viagem

Eu sou o poeta do Corpo
e sou o poeta da Alma,
as delícias do céu
estão em mim
e os horrores do inferno
estão em mim
- o primeiro eu enxerto
e amplio ao meu redor,
o segundo eu traduzo
em nova língua.
Eu sou o poeta da mulher
tanto quanto o do homem
e digo que tanta grandeza existe
no ser mulher
quanta no ser homem,
e digo que não há nada maior
do que uma mãe de homens.
Canto o cântico da expansão e orgulho:
já temos tido o bastante
em esquivanças e súplicas,
eu mostro que tamanho
nada mais é do que desenvolvimento.
você já passou os outros,
já chegou a Presidente?
É pouco: até aí hão de chegar
e irão ainda mais longe.
Eu sou aquele que vai com a noite
tenra e crescente,
e invoco a terra e o mar
que a noite leva pela metade.
Aperte mais, noite de peito nu!
Aperte mais, noite nutriz magnética!
Noite dos ventos do sul,
noite das poucas estrelas grandes!
Noite silenciosa que me acena
- alucinada noite nua de verão!
Sorria, ó terra cheia de volúpia,
de hálito frio!
Terra das árvores líquidas e dormentes!
Terra em que o sol se põe longe,
terra dos montes cobertos de névoa!
Terra do vítreo gotejar da lua cheia
apenas tinta de azul!
Terra do brilho e sombrio encontro
nas enchentes do rio!
Terra do cinza límpido das nuvens,
por meu gosto mais claras e brilhantes!
Terra que faz a curva bem distante,
rica terra de macieiras em flor!
Sorria: o seu amante vem chegando!
Pródiga, amor você tem dado a mim:
o que eu dou a você, por tanto, é amor
- indizível e apaixonado amor!

Walt Whitman

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06/03/2007

A tua ausência

"...Nisto acordei com dor, com impaciência;
E não vos encontrando, olhos brilhantes,
Vi que era a minha morte a vossa ausência!"

Bocage

Aqui

Vim aqui para contar os sinos
que vivem no mar,
que soam no mar,
dentro do mar.
Por isso vivo aqui.

Pablo Neruda

Eu tenho um colar de pérolas
Enfiado para te dar:
As per'las são os meus beijos,
O fio é o meu penar.

Fernando Pessoa



por... LaLi.
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25/02/2007

...“ Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram ..." Carlos Drummond de Andrade

O vôo

... Esgota, como um pássaro,
As canções que tens na garganta.
Canta. Canta para conservar a ilusão
De festa e de vitória.
Talvez as canções adormeçam as feras
Que esperam devorar o pássaro.
Desde que nasceste
Não és mais que um vôo no tempo.
Rumo ao céu?
Que importa a rota?
Voa e canta
Enquanto resistirem tuas asas.
 
Menotti del Pichia

Chuva

Chove uma grossa chuva inesperada
que a tarde não pediu mas agradece.
Chove na rua, já de si molhada
duma vida que é chuva e não parece.
Chove, grossa e constante,
uma paz que há-de ser.
Uma gota invisível e distante
na janela, a escorrer.

Miguel Torga

Liberdade

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Sophia de Mello Breyner Andresen

E por vezes
 
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos

David Mourão-Ferreira



por... LaLi.
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20/02/2007

Sede como os pássaros que,
ao pousarem um instante
sobre ramos muito leves,
sentem-nas ceder, mas cantam!
Eles sabem que possuem asas

Victor Hugo

Depois de algum tempo, você aprende a diferença...
a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma.
E você aprende que amar não significa apoiar-se,
e que companhia nem sempre significa segurança.
E começa a aprender que beijos não são contratos
e presentes não são promessas.
E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida
e os olhos adiante com a graça de um adulto,
e não com a tristeza de uma criança.
E aprende a construir todas as suas estradas hoje,
porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos,
e o futuro tem o costume de cair em meio ao vôo.
Depois de um tempo,
você aprende que até o sol queima
se você ficar exposto por muito tempo.
Portanto, plante seu jardim e decore sua alma,
em vez de esperar que alguém lhe traga flores.
E você aprende que realmente pode suportar...
Que realmente é forte e que realmente tem valor...
 
William Shakespeare

Deve- se estar sempre bêbado.
É a única questão.
Afim de não se sentir o fardo horrível do tempo,
que parte tuas espáduas e te dobra sobre a terra.
É preciso te embriagares sem trégua.
Mas de quê?
De vinho, de poesia ou de virtude?
A teu gosto mas embriaga-te.
E se alguma vez sobre os degraus de um palácio, sobre a verde relva
de uma vala, na sombria solidão de teu quarto, tu te encontras com
a embriaguez já minorada ou finda, peça ao vento, à vaga,
à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo aquilo que gira,
a tudo aquilo que voa, a tudo aquilo que canta,
a tudo aquilo que fala, a tudo aquilo que geme.
Pergunte que horas são.
E o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio, te responderão.
É hora de se embriagar !!!
Para não ser como os escravos martirizados do tempo,
embriaga-te. Embriaga-te sem cessar.
De vinho, de poesia ou de virtude. A teu gosto...
 
Charles Baudelaire



por... LaLi.
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12/02/2007

 

«Era uma mulher voluptuosa, mas muito sensível. Escrevia poemas e guardava-os no sempre emocionante espaço que existe entre um seio e outro. Alguns homens não a largavam à procura de inéditos.» Gonçalo M. Tavares

 

«Morri pela Beleza -- mas mal me tinha
Acomodado à Campa
Quando Alguém que morreu pela Verdade,
Da Casa do lado --
Perguntou baixinho "Por que morreste?"
"Pela Beleza", respondi --
"E eu -- pela Verdade -- Ambas são iguais --
E nós também, somos Irmãos", disse Ele --

E assim como parentes próximos, uma Noite --
Falámos de uma Casa para a outra --
Até que o Musgo nos chegou aos lábios --
E cobriu -- os nossos nomes --»

In: «Poemas e cartas»Emily Dickinson

 

«Hoje em dia pretende-se explicar tudo.
Mas se se pudesse explicar um quadro
não seria uma obra de arte. Quer que
eu lhe diga que qualidades constituem
a verdadeira arte? Ela tem que ser
indescritível e inimitável... A obra de
arte tem que arrebatar o observador,
por-se à sua volta e levá-lo consigo.
Nela o pintor transmite a sua paixão,
ela é a corrente que ele emite e pela
qual ele envolve o observador na sua
paixão.»

RENOIR, Pierre-Auguste (1841-1919)
(Fonte:«RENOIR»Peter H. Feist Ed TACHEN)

 

«Dir-se-ia que qualquer análise
dos nus de Modigliani apenas
permite duas atitudes extremas.
Ou os vemos como um mistério,
como uma expressão de pureza,
como a revelação de «toda a dolo-
rosa fragilidade do ser» (para citar-
mos mais uma vez Scheiwiller), ou
os rejeitamos liminarmente como
evidência tardia de uma visão deli-
cada e afectada do corpo humano,
os últimos estertores do fin de siécle
e do seu culto decadente da mulher
como «femme fatale» ou «femme
fragile»...

«Nu Sentado num Divã», 1917
AMEDEO MODIGLIANI 1884-1920
(Fonte: «MODIGLIANI» Krystof, Doris)



por... LaLi.
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04/02/2007


David Mourão-Ferreira, 1927-1996, Portugal

Professor da Faculdade de Letras de Lisboa, deixou uma obra importante no domínio da crítica e da teoria literária (Hospital das Letras, 1966, Lâmpadas no Escuro, 1979) e demonstrou domínio notável na arte do conto (Os Amantes e Outros Contos, 1968), escrevendo um romance de êxito assinalável (Um Amor Feliz, 1986). Mas é na poesia que o seu talento se desenvolve com incomparável mestria composicional (A Secreta Viagem, 1950), aliando a experiência do sentimento (do tempo, do amor, da escrita, da cidade, da paisagem) ao virtuosismo da sua expressão poética, em obras como Os Ramos os Remos, 1985, ou Música de Cama, 1994.

Teoria das marés

Calidamente nua,
sob o vestido leve,
tua carne flutua
no desejo que teve.
Timidamente nua,
revelas, num olhar,
em minhas mãos, a lua
que te fez oscilar.

Encontro

O teu mistério decifrei-o
numa pupila cega:
fechado e aberto como um seio
que pela noite se me entrega.
A luz, se vinha, não descia
do coração nem dos sentidos:
mas concentrava a extática alegria
de nos sentirmos confundidos.

Soneto do cativo

Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;
o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;
se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;
não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso.



por... LaLi.
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30/01/2007

Sol dos Insones

Sol dos insones! Ó astro de melancolia!
Arde teu raio em pranto, longe a tremular,
E expões a treva que não podes dissipar:
Que semelhante és à lembrança da alegria!
Assim raia o passado, a luz de tanto dia,
Que brilha sem com raios fracos aquecer;
Noturna, uma tristeza vela para ver,
Distinta mas distante-clara-mas que fria!

Lord Byron

A morte dos amantes

Teremos leitos só rosas ligeiras
Divãs de profundeza tumular,
E estranhas flores sobre prateleiras,
Sob os céus belos a desabrochar.
A arder de suas luzes derradeiras,
Nossos dois corações vão fulgurar,
Tochas a refletir duas fogueiras
Em nossas duas almas, este par
Gêmeos espelhos. Por tarde mediúnica,
Nós trocaremos uma flama única
Um adeus que é um soluço tão cruel;
Pouco depois, um anjo abrindo as portas,
Virá vivificar, o mais fiel,
Os espelhos sem luz e as chamas mortas.
 
Charles Baudelaire

Canção do berço vazio

Canção do berço vazio
nunca a ninguém acalenta,
nenhuma voz a cantou.
Canção de lábios cerrados
que estremeceu no silêncio
muito antes de ter princípio.
Canção de peito oprimido
que não encontra palavras
porque nem o berço existe.
Ah! quem sonhara acalantos,
fontes escorrendo leite
para inconcebidos anjos?
Num país irmão da noite
canção da loucura mansa
para ouvidos que não ouvem...
Canção do berço vazio
entrecortada de pratos
e de risos escondidos...
Lá do outro lado do mundo
canção sem nenhum sentido
pobre louca está cantando.

Henriqueta Lisboa

No meio da noite

Acordei meu bem pra lhe contar meu sonho:
sem apoio de mesa ou jarro eram
as buganvílias brancas destacadas de um escuro.
Não fosforesciam, nem cheiravam, nem eram alvas.
Eram brancas no ramo, brancas de leite grosso.
No quarto escuro, a única visível coisa, o próprio ato de ver.
Como se sente o gosto da comida eu senti o que falavam:
"A ressurreição já está sendo urdida, os tubérculos
da alegria estão inchando úmidos, vão brotar sinos.
" Doía como um prazer.
Vendo que eu não mentia ele falou:
as mulheres são complicadas. Homem é tão singelo.
Eu sou singelo. Fica singela também.
Respondi que queria ser singela e na mesma hora,
singela, singela, comecei a repetir singela.
A palavra destacou-se novíssima
como as buganvílias do sonho. Me atropelou.
O que foi? - ele disse.
- As buganvílias...
Como nenhum de nós podia ir mais além,
solucei alto e fui chorando, chorando,
até ficar singela e dormir de novo.

Adélia Prado

*****************************

OBS: agradeço pelos poemas a minha irmã Kinha, hoje me ajudou com seu extremo bom gosto...beijos..mittus...



por... LaLi.
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20/01/2007

PARA SER FELIZ

Graciette Salmon
 
...nada saber de Geografia
ignorando, assim, a semelhança
entre a ilha perdida no oceano
e o sozinho em meio à multidão.
...não conhecer História Natural,
imaginando integram um só reino
os animais e os minerais,
não havendo surpresa ao defrontar,
a cada passo, corações de pedra.
...nunca ter aprendido Matemática
e não poder, então, somar angústias,
multiplicar tristezas e desgostos,
contar e recontar horas vazias.
...desconhecer Astronomia,
posição e distância das estrelas
supondo ser possível alcançá-las,
traze-las aos punhados, faiscantes,
para o enlevo dos olhos bem amados.
...não ter qualquer noção de Geometria,
de ângulos, triângulos, polígonos;
não entender de círculos e retas,
porque só é feliz quem nada sabe,
nem percebe que o Sonho e a Realidade
fazem jornada em ruas paralelas.

(Dona Vida)

A VIDA É UMA VITRINA...

Graciette Salmon

A Vida é uma vitrina de tecidos.
A gente, por instantes,
fica de olhos perdidos
na beleza das telas deslumbrantes.
Depois, entra na loja e vai comprar.
Caixeirinha gentil, a Ilusão
vem vender ao balcão
e não se cansa de mostrar,
não se cansa
de exibir delicados,
rendilhados,
leves panos de Sonho e de Esperança.
As mãos tocam de leve
na leveza das telas.
Não vá o gesto, por mais breve,
esgarçar uma delas!
Todas tão lindas! Mas a que fascina
não está ali na grande confusão
das peças espalhadas no balcão.
E a gente diz,
num ar feliz:
"Levo daquela rósea, muito fina,
exposta na vitrina."
Logo o Destino vem (da loja é o dono)
e fala sobranceiro, com entono:
"É artigo raro.
Marca, padrão e cor: - Felicidade.
É um artigo de alta qualidade
o mais caro
de todos os tecidos.
São cortes especiais...e estão vendidos!"
.............
E a gente vai comprar do áspero pano
que se encontra na seção do Desengano.

(O Que Ficou Do Sonho)



por... LaLi.
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16/01/2007

Gracias a la vida

Obrigada à vida

Violeta Parra

Obrigada à vida
que me deu tanto
Deu-me dois olhos
que quando os abro
perfeito distingo
o preto do branco
no alto céu seu fundo estrelado
e nas multidões o homem que eu amo.

Obrigada à vida
que me deu tanto
Deu-me o ouvido
que em toda sua extensão
grava noite e dia
grilos e canários
martelos, turbinas, latidos, chuvaradas
e a voz tão terna do meu bem amado

Obrigada à vida
que me deu tanto Deu-me o som
e o abecedário
com ele as palavras
que penso e declaro
"mãe, amigo, irmão"
e a luz, iluminando
o rumo da alma do que estou amando

Obrigada à vida
que me deu tanto
Deu-me a marcha
dos meus pés cansados
com eles andei
cidades e charcos
praias e desertos, montanhas e planos
tua casa, tua rua e teu pátio.

Obrigada à vida
que me deu tanto
Deu-me o coração
que agita seu marco
quando olho o fruto
do cérebro humano
quando olho o bom tão longe do mal
quando olho o fundo de teus olhos claros

Obrigada à vida
que me deu tanto
Deu-me a risada
e deu-me o pranto
assim distingo
felicidade de fraqueza
os dois materiais que formam meu canto
o canto de todos que é mesmo canto
o canto de todos que é meu próprio canto

Obrigada à vida!

 

Violeta Parra, folclorista, tapeceira, pintora e ceramista, nasceu em 4 de outubro de 1917 em San Carlos, província de Ñuble. Realizou seus estudos escolares até o segundo ano do secundário, abandonando-os em 1934, para trabalhar e cantar com seus irmãos em bares e circos, desenvolvendo uma importante carreira musical, que se originou de maneira autodidata, a partir dos 9 anos. Em 1938, se casou pela primeira vez e dessa união, teve dois filhos. Viveu em Valparaíso entre 1943 e 1945, e voltou a Santiago, para cantar junto com seus filhos Isabel e Ángel. Em 1949 voltou a se casar e teve duas filhas dessa nova união. Em 1952 começou a pesquisar as raízes folclóricas chilenas e compôs os primeiros temas musicais que a fariam famosa. Em 1954, quando já tinha o seu próprio programa de rádio, começou um rigoroso estudo das manifestações artísticas populares. Durante 1955 visitou a União Soviética, Londres e Paris, cidade onde residiu dois anos. Realizou gravações para a BBC e os selos Odeón e "Chant du Monde". Em 1957 se radicou em Concepción, voltando a Santiago no ano seguinte para começar sua produção plástica. Percorreu todo o país, recopilando e difundindo informações sobre o folclore. Em 1961 mudou-se para a Argentina, onde fez grande sucesso com suas apresentações. Voltou a Paris e ali permaneceu por três anos percorrendo varias cidades da Europa, destacando-se suas visitas a Genebra. Em 1965 voltou ao Chile, viajou para a Bolívia e ao seu regresso ao país, continuou suas apresentações na tenda instalada na comunidade de La Reina; nesse lugar, a 5 de fevereiro 1967, suicidou-se.

clique na imagem de Mercedes Sosa abaixo e ouça...

**Esse foi um post que fiz no dia 12/01/07 no blog Noites Sem Fim um blog de poemas ..músicas e sonhos..é lindo...são de amigos da sala 5 da uol..de 40 a 50 anos...clica figura abaixo e visita, vai ser benvindo(a)..beijos...



por... LaLi.
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13/01/2007

...há instantes-lâmina,
instantes que nos retalham
e nos confrontam com quem somos
e porque.
percorrem-nos lentamente
em sua natureza afiada.

silvia chueire

Deixa-me seguir para o mar
Tenta esquecer-me...
Ser lembrado é como evocar
Um fantasma....
Deixa-me ser o que sou,
O que sempre fui,um rio fluindo...
Em vão,em minhas margens cantarão as horas,
Me recamarei de estrelas como um manto real,
Me bordarei de nuvens e de asas,
Às vezes virão a mim as crianças banhar-se...
Um espelho não guarda as coisas refletidas!
E o meu destino é seguir...
É seguir para o mar,
As imagens perdendo no caminho...
Deixa-me fluir,passar,cantar...
Toda a tristeza dos rios
É não poder parar!

Mario Quintana

Presença

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.

Mario Quintana

Canção para uma Valsa Lenta

Minha vida não foi um romance...
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amas, não digas, que morro
De surpresa... de encanto... de medo...
Minha vida não foi um romance...
Minha vida passou por passar.
Se não me amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.
Minha vida não foi um romance...
Pobre vida... Passou sem enredo...
Glória a ti que me enches de vida
De surpresa, de encanto, de medo!
Minha vida não foi um romance....
Ai de mim... Já se ia acabar!
Pobre vida que toda depende
De um sorriso... de um gesto... um olhar

Mario Quintana

Canção do dia de sempre

Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...
Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

Mario Quintana



por... LaLi.
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07/01/2007

Eu não voltarei.E a noite
morna,serena, calada,
adormecerá tudo, sob
sua lua solitária.
Meu corpo estará ausente,
e pela janela alta
entrará a brisa fresca
a perguntar por minha alma.
Ignoro se alguém me aguarda
de ausência tão prolongada,
ou beija a minha lembrança
entre carícias e lágrimas.
Mas haverá estrelas, flores
e suspiros e esperanças,
e amor nas alamedas,
sob a sombra das ramagens.
E tocará esse piano
como nesta noite plácida
não havendo quem o escute,
a pensar, nesta varanda.

Juan Ramón Jimenez

O Próprio Ser Eu Canto

O próprio ser eu canto:
Canto a pessoa em si, em separado
_ embora use a palavra Democracia
e a expressão Massa.
Eu canto o Corpo
Da cabeça aos pés:
Nem só o cérebro
Nem só a fisionomia
Tem valor para a Musa
_ digo que a forma completa
é muito mais valiosa,
e tanto a Fêmea quanto o Macho
eu canto.
A vida plena de paixão,
Força e pulsam,
Preparada para as ações mais livres
Com suas leis divinas
_O Homem Moderno
eu canto.

Walt Whitman

O jardim e a noite

Atravessei o jardim solitário e sem lua,
Correndo ao vento pelos caminhos fora,
Para tentar como outrora
Unir a minha alma à tua,
Ó grande noite solitária e sonhadora.

Entre os canteiro cercados de buxo,
Sorri à sombra tremendo de medo.
De joelhos na terra abri o repuxo,
E os meus gestos foram gestos de bruxedo.
Foram os gestos dessa encantação,
Que devia acordar do seu inquieto sono
A terra negra dos canteiros
E os meus sonhos sepultados
Vivos e inteiros.

Mas sob o peso dos narcisos floridos
Calou-se a terra,
E sob o peso dos frutos ressequidos
Do presente,
calaram-se os meus sonhos perdidos.

Entre os canteiros cercados de buxo,
Enquanto subia e caía a água do repuxo,
Murmurei as palavras em que outrora
Para mim sempre existia
O gesto dum impulso.
Palavras que eu despi da sua literatura,
Para lhes dar a sua forma primitiva e pura,
De fórmulas de magia.

Docemente a sonhar entre a folhagem
A noite solitária e pura
Continuou distante e intangível
Sem me deixar penetrar no seu segredo.
E eu senti quebrar-se, cair desfeita,
A minha ânsia carregada de impossível,
Contra a sua harmonia perfeita.

Tomei nas minhas mãos a sombra escura
E embalei o silêncio nos meus ombros.
Tudo em minha volta estava vivo
Mas nada pôde acordar dos seus escombros
O meu grande êxtase perdido.

Só o vento passou pesado e quente
E à sua volta todo o jardim cantou
E a água do tanque tremendo
Se maravilhou
Em círculos, longamente.

Sophia de Mello Breyner e Andresen



por... LaLi.
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27/12/2006 

"Este homem caminha a chorar
ninguém sabe dizer porquê
às vezes pensam que são os amores perdidos..."

Narração..Yorgos Seferisin

 

Flores do rochedo diante do mar verde
com veias que me lembravam outros amores
ao brilharem na lenta queda de gotas,
flores do rochedo semblantes
que vieram quando ninguém falava e me falaram
que me deixaram tocá-los depois do silêncio
entre pinheiros loendros e plátanos.

Yorgos Seferisin
in "Poemas Escolhidos". Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratisinis.

 

A folha do choupo

Tremia tanto que o vento a levou
tremia tanto como não a levaria o vento
lá longe
um mar
lá longe
uma ilha ao sol
e as mãos apertando os remos
morrendo no momento em que o porto apareceu
e os olhos fechados
em anémonas do mar.

Tremia tanto tanto
procurei-a tanto tanto
na cisterna com os eucaliptos
na primavera e no verão
em todas as nuas florestas
meu deus procurei-a.


XXIII

Um pouco mais
e veremos florescer as amendoeiras
os mármores brilharem ao sol
o mar a ondear

um pouco mais
para nos levantarmos um pouco mais alto.

Yorgos Seferis (Γιώργος Σεφέρης)
poeta grego (1900-1971)
PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA DE 1963



por... LaLi.
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13/12/2006

É esquisito que teu nome sempre me soe uma prece, uma invocação sagrada e solene, que contém em si um segredo místico viajando pelo tempo, como se trouxesse consigo o desejo implícito dessa maneira única com que moves as mãos, com que abres a boca, com que recostas teu corpo, com que deixas o riso fugir pelos olhos. É estranho que teu nome sempre me soe uma promessa e um dom, como se bastasse pronunciá-lo para que a vida abra uma porta secreta, para que se insinue um milagre prestes a ser, eu assim em ti, simplesmente em teu nome.
Ticcia
http://www.naodiscuto.com/

O Anel de Vidro

Aquele pequenino anel que tu me deste,
– Ai de mim – era vidro e logo se quebrou…
Assim também o eterno amor que prometeste,
- Eterno! era bem pouco e cedo se acabou.

Frágil penhor que foi do amor que me tiveste,
Símbolo da afeição que o tempo aniquilou, –
Aquele pequenino anel que tu me deste,
– Ai de mim – era vidro e logo se quebrou…

Não me turbou, porém, o despeito que investe
Gritando maldições contra aquilo que amou.
De ti conservo no peito a saudade celeste…
Como também guardei o pó que me ficou
Daquele pequenino anel que tu me deste…

Manuel Bandeira

Não sei...

Não sei...
se a vida é curta
ou longa demais para nós.

Mas sei que nada do que vivemos
tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que sacia,
amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo:
é o que dá sentido à vida.

É o que faz com que ela
não seja nem curta,
nem longa demais,
mas que seja intensa,
verdadeira e pura...
enquanto durar.

Cora Coralina

beijos...££



por... LaLi.
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05/12/2006

 

A paga

(...)
Amei e odiei como toda a gente,
Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,
E para mim foi sempre a excepção, o choque, a válvula, o espasmo.

Vem, ó noite,e apaga-me, vem e afoga-me em ti.
Ó carinhosa do Além, senhora do luto infinito,
Mágoa externa da Terra, choro silencioso do Mundo.
Mãe suave e antiga das emoções sem gesto,
Irmã mais velha, virgem e triste, das ideias sem nexo,
Noiva esperando sempre os nossos propósitos incompletos,
A direcção constantemente abandonada do nosso destino,
A nossa incerteza pagã sem alegria,
A nossa fraqueza cristã sem fé,
O nosso budismo inerte, sem amor pelas coisas nem êxtases,
A nossa febre, a nossa palidez, a nossa impaciência de fracos,
A nossa vida, ó mãe, a nossa vida perdida...
(...)

 Álvaro de Campos

 

Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, Porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Vinícius de Moraes



por... LaLi.
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21/11/2006

"Amar é mudar a alma de casa."

Mario Quintana

 

Noite de Saudade

A Noite vem poisando devagar
Sobre a Terra, que inunda de amargura...
E nem sequer a benção do luar
A quis tornar divinamente pura...

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura...
E eu oiço a Noite imensa soluçar!
E eu oiço soluçar a Noite escura!

Porque és assim tão escura, assim tão triste?!
é que, talvez, ó Noite, em ti existe
Uma saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu sei donde me vem...
Talvez de ti, ó Noite!... Ou de ninguém!...
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!

Florbela Espanca

 

O Tempo

O tempo é a única prova segura de tudo. Não só é o crítico mais severo; é o crítico recto e preciso. Ninguém pode julgar do valor disto ou daquilo num momento, porque só o tempo o pode fazer. O tempo dar-lhe-á o valor que merece. (...) Nunca se deixe enganar pelo calendário. O ano só tem os dias que sabe empregar bem. Uma pessoa pode ter num ano o valor de uma semana, enquanto outra tira o valor de um ano inteiro em uma semana.

Alfred Montapert

O Livro da Vida

O livro da nossa vida
É um livro diferente
Que uma só vez se lê,
Que uma vez só se sente!

É um livro que não se abre
Na página que queremos
Voltar atrás... não se pode!
O final... nós não sabemos!

O livro da nossa vida
É um livro de surpresa
Tem páginas de alegria,
Tem páginas de tristeza...

O livro da nossa vida
É um livro de aventura,
Cheio de luta e coragem,
Cheio de risco e bravura!

O livro da nossa vida
É um livro de emoção,
Ora sacode os sentidos,
Ora fala ao coração!

É preciso preparar-se
Para esse livro bem ler,
É o mais emocionante

Romance, você vai ver!

Você, que está no começo,
No capítulo perfeito
Da infância e da adolescência,
Leia esse livro direito!

Leia-o com todo o cuidado,
Saboreie devagar,
Não desperdice uma linha
Dessa leitura sem par...

Atenção! Página lida
Virou... não volta jamais!
O grande Livro da Vida
Lê uma vez, ... nada mais!

Maria Alice Penna de Azevedo



por... LaLi.
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13/11/2006

haverá sempre um poema inacabado
apedrejando minha memória
nas claras noites
que você abriu
no escuro do meu peito

Eliane Malpighi

"Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato.
Ou toca, ou não toca."

Clarice Lispector

"Eu queria poder usar a delicadeza que também tenho em mim, ao lado da grossura de camponesa que é o que me salva."

Clarice Lispector



por... LaLi.
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08/11/2006

 

Al mar
hay que volver al mar
y ahogarse de verdad
para saber lo que es la vida

Dante Salgado

 

Todas as rosas são a mesma rosa,
amor!, a única rosa;
e tudo está contido nela,
breve imagem do mundo,
amor!, a única rosa.

Juan Ramón Jiménez

 

É isto vivemos dentro
de grandes blocos de gelo
sem aquecermos ao menos
com os dedos outros dedos
No fundo de nós temendo
que um dia se quebre o gelo.

David Mourão-Ferreira

 

"São demais os perigos desta vida
Pra quem tem paixão principalmente
Quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecida
E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher..."

 

 

Um único ser, mas não existe sangue.
Uma carícia apenas, morte ou rosa.
Vem o mar e reúne as nossas vidas,
sozinho ataca e reparte-se e canta
em noite e dia e criatura e homem.
A essência: fogo e frio: movimento.

Pablo Neruda

 

estação

Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça

Mário Cesariny

é preciso

“Conheço bem demais as condições
que as pessoas precisam de reunir para me compreenderem.
É preciso que sejam íntegras até à dureza (…)
É preciso que estejam habituadas a viver sobre montanhas (…)
É preciso que tenham uma predilecção dos fortes
por problemas que hoje ninguém tem a coragem de esclarecer:
é preciso que tenham a coragem do fruto proibido;
a predestinação do labirinto.
É preciso que tenham a experiência de sete solidões.
Ouvidos novos para uma música nova.
Olhos novos para as coisas mais longínquas.”

F. Nietzsche



por... LaLi.
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01/11/2006

Dedicatória de Vida...

Na encosta floresce a urze,
A giesta fita-a em tufos acastanhados
Quem se lembra hoje de como em Maio
Os bosques estavam de verde banhados?

Quem sabe ainda como é o canto do melro,
Como soava a chamada do cuco?
O que antes soou tão encantador e belo
Está já esquecido e caduco.

No bosque a grande festa da noite de Verão,
A lua cheia sobre o monte além,
Quem foi que as descreveu, que as fixou?
Tudo foi disperso, tudo debandou.

Em breve também de ti e de mim
Ninguém se lembrará e terá o que contar
Vivem já outras pessoas aqui
Não haverá a quem possamos faltar.

Pela estrela da tarde e as primeiras neblinas
Iremos então aguardar,
De bom grado no imenso jardim da Deus
Iremos florescer e murchar.

(Hermann Hesse)

 

…como uma roseira brava.

Avancei cautelosa através das dunas. Deixara o carro na estrada e aventurava-me por um caminho (re) conhecido.
Quantas vezes naquele local, de mãos dadas e corpos suados, não tínhamos corrido em direcção ao mar?
Uma música suave fazia-se ouvir, trazida pelo vento.
Fechei os olhos e de repente, senti a sua presença.
Não acredito que te encontrei aqui…não esqueceste este lugar?
Como poderia esquecer? – pensei, ainda incrédula pela sua presença.
Ah…conheço todos os teus pensamentos. Sabia que um dia virias aqui…A sua voz tinha uma entoação doce, enquanto os seus lábios tocavam o meu pescoço.
Não sejas atrevido…olha que nos podem ver…
Mas sem me importar com o que acabara de dizer, deixava que o seu corpo tomasse conta do meu e cada beijo enfraquecia a minha vontade de fugir dali.
O silêncio instalou-se para dar lugar às batidas dos nossos corpos, do nosso coração. Nem as gaivotas que voavam em círculos nos quiseram perturbar.
Foges!? A sua voz rouca é um lamento...
Numa gargalhada solto os cabelos que caem revoltos nos meus ombros.
Num gesto rápido, retiro a fina peça que cobria o meu corpo e atiro-lha, deixando-me ficar de pé aguentando o seu olhar malicioso…
Quando os nossos corpos se uniram num frémito de paixão, o grito da gaivota fez-se ouvir…
Como numa roseira brava, floresciam em nós desejos infindáveis e a entrega foi mútua, numa explosão de aromas e cores.

Quanto tempo por nós passou meu amor
Perto de ti na imensidão do mar!
As rosas mais formosas desfolharam
E levou-as o vento pelo ar.
E o meu roseiral de sonho e saudade
Entreguei-o à doce claridade
Do teu olhar, que me ilumina ainda.

Quando corri para o mar, cabelos ao vento... ia vestida de rosas...

by Menina_marota @
http://meninamarota.blogspot.com/



por... LaLi.
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24/10/2006

Suspiro d’Alma

Suspiro que nasce d’alma,
Que à flor dos lábios morreu...
Coração que o não entende
Não no quero para meu.
Falou-te a voz da minha alma,
A tua não na entendeu:
Coração não tens no peito,
Ou é dif’rente do meu.
Queres que em língua da terra
Se digam coisas do céu?
Coração que tal deseja,
Não no quero para meu.

 

Olhos negros

Por teus olhos negros, negros,
Trago eu negro o coração,
De tanto pedir-lhe amores...
E eles a dizer que não.
E mais não quero outros olhos,
Negros, negros como são;
Que os azuis dão muita esp'rança
Mas fiar-me eu neles, não.
Só negros, negros os quero;
Que, em lhes chegando a paixão,
Se um dia disserem sim...
Nunca mais dizem que não.

 

Não te amo

Não te amo, quero-te: o amar vem d'alma.
E eu n'alma --- tenho a calma,
A calma --- do jazigo.
Ai! não te amo, não.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida --- nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!
Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.
Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?
E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.
E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.

ALMEIDA GARRET (1799-1854)



por... LaLi.
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16/10/2006

"Eu senti antes de pensar."
Rousseu

"Tu eras uma ausência que se demorava; uma despedida pronta a cumprir-se".
Cecilia Meireles

 
 
"haverá sempre um poema inacabado
apedrejando minha memória
nas claras noites
que você abriu
no escuro do meu peito"
Eliane Malpighi

" Todos os dias, quando acordo, vou correndo tirar a poeira da palavra amor"
Clarice Lispector

 
 
"Todas as prendas que me deste, um dia,
Guardei-as, meu encanto, quase a medo,
E quando a noite espreita o pôr-do-sol,
Eu vou falar com elas em segredo..."
Florbela Espanca
 
 
 
"Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é."
Alberto Caeiro
 

"Agora quero dormir. Quero distrair-me, ou seja ler. Da cama olhei em volta e descobri que o livro que num dia como este eu teria querido ler não estava ainda escrito(...)"
C.Wolf 

"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!"
Florbela Espanca 

"Sou assombrada pelos meus fantasmas, pelo que é mítico e fantástico - a vida é sobrenatural. E eu caminho em corda bamba até o limite de meu sonho. As vísceras torturadas pela voluptuosidade me guiam, fúria dos impulsos. Antes de me organizar, tenho que me desorganizar internamente. Para experimentar o primeiro e passageiro estado primário de liberdade. Da liberdade de errar, cair e levantar-me."
Clarice Lispector



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11/10/2006

Você e você

você, eu amo
é um pedaço de mar
caindo no céu
não pode, não é?
mas importa amar
saber que a vida é uma estátua

você, eu quero amar
é um pedaço de céu
caindo no mar
previsível, não é?
mas importa forjar o que queremos
e nunca o que temos.

Linaldo Guedes

esse post, dedico as minhas amigas, Kinha e Tania que estão fazendo aniversário dia 12...

 Soneto de aniversário

Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece. 

 Vinicius de Moraes



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03/10/2006

Não entendo

Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco.
Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.

Clarice Lispector
 
 
A dor - O sofrimento e a opção
 
"Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas
e não se cumpriram.
Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer,
apenas agradecer por termos conhecido
uma pessoa tão bacana,
que gerou em nós um sentimento intenso
e que nos fez companhia por um tempo razoável,
um tempo feliz.
Sofremos por quê?
Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer
pelas nossas projeções irrealizadas,
por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor
e não conhecemos,
por todos os filhos
que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,
por todos os shows, livros e silêncios
que gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados,
pela eternidade.
Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco,
mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema,
para conversar com um amigo, para nadar, para namorar.
Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco,
mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela
nossas mais profundas angústias
e ela estivesse interessada em nos compreender.
Sofremos não porque nosso time perdeu,
mas pela euforia sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos,
mas porque o futuro está sendo confiscado de nós,
impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e
nunca chegamos a experimentar.
Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo,
mais me convenço de que o desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável. O sofrimento é opcional."
Carlos Drummond de Andrade


por... LaLi.
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29/09/2006

 

O Beijo
( Cyrano de Bergerac, act.III, Sc.IX }

Um beijo, mas, enfim, que grande coisa é essa?
Jura que de mais perto é jurada, promessa
Mais clara, confissão que quer confirmação,
Ponto róseo no i da palavra paixão,

Segredo que se diz à boca em vez da orelha,
Instante do infinito em sussurro de abelha,

Com sabor de flor amável comunhão.
Modo de respirar um pouco o coração
E de provar um pouco, à flor dos lábios, a alma!

Edmond Rostand

 

Garça Perdida

Anoiteceu
no meu olhar de feiticeira,
de estrela do mar, de céu, de lua cheia,
de garça perdida na areia.
Anoiteceu no meu olhar,
perdi as penas, não posso voar,
deixei filhos e ninhos,
cuidados, carinhos, no mar...
Só sei voar dentro de mim
neste sonho de abraçar
o céu sem fim, o mar, a terra inteira!
E trago o mar dentro de mim,
com o céu vivo a sonhar e vou sonhar até ao fim,
até não mais acordar...
Então, voltarei a cruzar este céu e este mar,
voarei, voarei sem parar á volta da terra inteira!
Ninhos faria de lua cheia e depois,
dormiria na areia...

Dulce Pontes

 

ONTEM  A NOITE
 
Ontem — sozinhos — eu e tu, sentados,
Nos contemplamos quando a noite veio:
Queixosa e mansa a viração dos prados
Beijava o rosto e te afagava o seio,
Que palpitava como ao longe o mar...
E lá no céu esses rubis pregados
Brilhavam menos que teu vivo olhar!
 
Co´a mão nas minhas, no silêncio augusto,
Tu me falavas sem mentido susto,
E nunca a virgem que a paixão revela,
Passou-me em sonhos tão formosa assim!
Vendo essa noite pura, e a ti tão bela,
Eu disse aos astros: — dai o céu a ela!
Disse a teus olhos: — dai amor p´ra mim!

Victor Hugo - tradução de Casimiro de Abreu



por... LaLi.
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21/09/2006

Abrigo

Abrigo-me de ti
de mim não sei
há dias em que fujo
e que me evado

há horas em que a raiva
não sequei
nem a inveja rasguei
ou a desfaço

Há dias em que nego
e outros onde nasço

há dias só de fogo
e outros tão rasgados

Aqueles onde habito com tantos
dias vagos

Maria Teresa Horta


O Beijo
 

os teus lábios parados eram a noite, o abismo
e o silêncio das ondas paradas de encontro às
rochas, o teu rosto dentro das minha mãos.
os meus dedos sobre os teus lábios e a ternura,
como o horizonte, debaixo dos meus dedos.
os meus lábios a aproximarem-se dos teus lábios,
os teus olhos entreabertos, os teus olhos e os
teus lábios a aproximarem-se dos meus lábios
a aproximarem-se dos teus lábios a aproximarem-se
dos meus lábios, teus lábios.

José Luís Peixoto

Ritual do silêncio 

É do ocaso que te quero falar:
-Da angústia que se esvai;
Com ela o sol.
Da hora em que o silêncio ainda é tão leve
que nem sequer a brisa o trai.

Verás o tempo estagnar
no intangível esbater da cor.
Os cinzas e os cobres em que repousam
os verdes e os azuis.

Quero falar-te do desassossego dos pássaros,
prenúncio da calma de mais uma noite,
e, da paz intensa, mas tão breve,
que gostava de partilhar contigo,
meu amor.

Manuel Filipe



por... LaLi.
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14/09/2006

AS AMORAS

O meu país sabe às amoras bravas no verão.
Ninguém ignora que não é grande,nem inteligente,
nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez nem goste dele,
mas quando um amigo me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos, reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade

 

Amor, quantos caminhos...

"Amor, quantos caminhos até chegar a um beijo,
que solidão errante até tua companhia!
Seguem os trens sozinhos rodando com a chuva.
Em taltal não amanhece ainda a primavera.
Mas tu e eu, amor meu, estamos juntos,
juntos desde a roupa às raízes,
juntos de outono, de água, de quadris,
até ser só tu, só eu juntos.
Pensar que custou tantas pedras que leva o rio,
a desembocadura da água de Boroa,
pensar que separados por trens e nações
tu e eu tínhamos que simplesmente amar-nos
com todos confundidos, com homens e mulheres,
com a terra que implanta e educa cravos.”

Amor, quantos caminhos...

Pablo Neruda

 

Colhendo amoras

Ninguém no caminho, e nada, nada a não ser amoras,
amoras dos dois lados, embora mais à direita,
uma álea de amoras, descendo em curvas fechadas, e um
mar
algures, lá ao longe, arfando. Amoras
tão grandes como a cabeça do meu polegar, e mudas como
olhos
negros nas sebes, repletas
de um suco azul-vermelho. Este desperdiça-se nos meus
dedos.
Não pedira tal comunhão de sangue; devem amar-me.
Comprimem-se numa garrafa de leite, de encontro aos seus
lados.
Sobre mim passam, com a sua cacofonia, os corvos em
bandos negros,
pedaços de papel queimado oscilando num céu ventoso.
A sua voz é a única que está a protestar, a protestar.
Julgo que o mar não vai mesmo aparecer.
Os verdes e altos prados brilham como iluminados por
dentro.
Chego a um arbusto de bagas tão maduras: é um arbusto
de moscas,
suspendendo os seus abdómens azuis esverdeados e os
vidrilhos alados de um biombo chinês.
O festim de mel das bagas surpreendeu-as; julgam-se no
paraíso.Para além de uma curva, as bagas e os arbustos acabam.
A única coisa que vem a seguir é o mar.
De entre duas colinas sopra contra mim um vento súbito,
sacudindo como fantasmas a sua roupa branca contra o
meu rosto.
Estas colinas são demasiado verdes e suaves para terem
saboreado o sal.
Sigo, entre elas, a vereda aberta pelas ovelhas. Uma última
curva leva-me
até à face norte das colinas, e a face é urna rocha alaranjada
que olha para nada, nada a não ser uma grande extensão
de luzes brancas e cor de estanho e um ruído como o de
um ourives
batendo sempre um metal rebelde.

Sylvia Plath

bjus...



por... LaLi.
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08/09/2006

 "Esses dias cinzas não os passaremos em branco, mas em vermelho, amarelo, laranja, verde, nas tardes choveremos lilás."
(Chandal Nasser)

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
Ou metade desse intervalo, porque também há vida...
Sou isso, enfim...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos
no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.

Alvaro de Campos

Cada Lugar teu

Sei de cor cada lugar teu
atado em mim, a cada lugar meu
tento entender o rumo que a vida nos faz tomar
guardar só o que é bom de guardar..

Pensa em mim protege o que eu te dou
Eu penso em ti e dou-te o que de melhor eu sou
sem ter defesas que me façam falhar
nesse lugar mais dentro
onde só chega quem não tem medo de naufragar...

Fica em mim que hoje o tempo dói
como se arrancassem tudo o que já foi
e até o que virá e até o que eu sonhei
diz-me que vais guardar e abraçar
tudo o que eu te dei...

Mesmo que a vida mude os nossos sentidos
e o mundo nos leve pra longe de nós
e que um dia o tempo pareça perdido
e tudo se desfaça num gesto só...

Eu vou guardar cada lugar teu
ancorado em cada lugar meu
e hoje apenas isso me faz acreditar
que eu vou chegar contigo
onde só chega quem não tem medo de naufragar...

 Mafalda Veiga 



por... LaLi.
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28/07/2006

Intensidade(s)


Sempre a Razão vencida foi de Amor;
Mas, porque assim o pedia o coração,
Quis Amor ser vencido da Razão.
Ora que caso pode haver maior!

Novo modo de morte e nova dor!
Estranheza de grande admiração,
Que perde suas forças a afeição,
Por que não perca a pena o seu rigor.

Pois nunca houve fraqueza no querer,
Mas antes muito mais se esforça assim
Um contrário com outro por vencer.

Mas a Razão, que a luta vence, enfim,
Não creio que é Razão; mas há-de ser
Inclinação que eu tenho contra mim.

Luís de Camões

Hora


Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta --- por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.

Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.

E dormem mil gestos nos meus dedos.

Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.

Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.

(Poema de Sophia de M B Andresen) 

***

13/07/2006

E por vezes

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira

Do amor


Juro que te amarei para sempre
Mas não posso jurar que te amarei da mesma forma todos os dias.
Se nem sempre sou igual a mim mesma
Como te poderia jurar do amor a uniformidade?
Mas juro que te amarei para sempre.
Uns dias sentir-me-ás como brisa
Soprarei os teus cabelos
Brincarei com as tuas roupas
E serei tão leve e mal presente
Que te interrogarás da presença e brevidade do amor.
Mas juro que te amarei para sempre.
Noutros dias serei como o sol
Quando implacável incendeia céu e paisagem
Queimar-te-ei o corpo
Serei certeza tão ardente
Que de nada mais saberás senão de mim e do amor.
Dias haverá em que sombra de mim mesma
Coberta de luto, envolta em silêncio
Me julgarás, como me julgo, perdida
E pensarás certo da partida olhando o escuro que te cerca
"Não me ama, partiu, e nem sequer disse adeus."
Juro que te amarei para sempre
Mas não posso jurar-te amor igual todos os dias.

(Todos os textos registados na Sociedade Portuguesa Autores)

Encandescente

http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?categoria=1&id=5384



por... LaLi.
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                      29/06/2006

 

um poema de flor


cheiro acre-doce de essências divinas,

perfumes mágicos do amor,

lança, relança,

perfuma divinamente a vida e

o ser vive

e a flor vive, transcende à essência do sonho

Milton Oliveira 

 

****

esse post é dedicado a minha mãe Maria, toda delicadinha como é..fazendo 80 anos hoje...um beijo mãe...amo voce...muito...

  


"A Velhice pode guardar a beleza"

 Paulo Coelho

Ana Cintra conta que seu filho pequeno,
com a curiosidade de quem ouviu uma nova palavra, mas ainda nao entendeu seu significado, perguntou-lhe:
"Mamãe, o que é velhice? "
Na fração de segundo antes da resposta,
Ana fez uma verdadeira viagem ao passado.
Lembrou-se dos momentos de luta, das dificuldades, das decepções.
Sentiu todo o peso da idade e da responsabilidade em seus ombros.
Tornou a olhar para o filho, que, sorrindo, aguardava uma resposta.
"Olhe para o meu rosto, filho" , disse ela.
"Isto é a velhice".
E imaginou o garoto vendo as rugas e a tristeza em seus olhos.
Qual não foi sua surpresa quando,
depois de alguns instantes, o menino respondeu:
"Mamãe! Como a velhice é bonita!"  



por... LaLi.
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          22/06/2006

AS MINHAS ASAS

Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.

- Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que mas deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu.

Veio a cobiça da terra,
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.
- Veio a ambição, coas grandezas,
Vinham para mas cortar,
Davam-me poder e glória;
Por nenhum preço as quis dar.

Porque as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Em me eu cansando da terra
Batia-as, voando ao céu.

Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,
Ia voar para elas,
- Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas...
Vi, entre a névoa da terra,
Outra luz mais bela que elas.

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não se erguiam ao céu.

Cegou-me essa luz funesta
De enfeitiçados amores...
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!
- Tudo perdi nessa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,
O acre prazer das dores.

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Pena a pena, me caíram...
Nunca mais voei ao céu.


[Almeida Garrett- Porto, 1799-1854]

esse post dedico a amiga ÞerÞetµal night ...

desejo de todo coração que voce fique bem....



por... LaLi.
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"...para ti eu criarei
um dia puro...livre
como o vento e
repetido como o florir
das ondas ordenadas. "

Sophia de M.B. Andrensen

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Tu já tinhas um nome, e eu não sei se eras fonte ou brisa ou mar ou flor. Nos meus versos chamar-te-ei. Amor...

Eugénio de Andrade

_____________________

Sejam Benvindos(as)...


<BGSOUND SRC="http://www.terraemarmusicas.com.br/sound/danilo_caymmi_-_cancao_do_amor_rasgado.mid">

o que toca...

Canção do amor rasgado

Danilo Caymmi

clique e conheça

Terra e Mar Músicas

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onde estou...

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_____________________

Serenamente

Aqui serenamente
sou feliz
sem qualquer memória do passado

sem qualquer cansaço
mascarado
ou trevas que encubram
qualquer escombro

de ti tudo o que vem
é quente e súbito

da tua voz
amor
do nosso encontro único

Maria Teresa Horta

_____________________

Soneto da Fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes e com tal zelo e sempre e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vive-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa lhe dizer do amor que tive
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas, que seja infinito enquanto dure.

 Vinícius de Moraes

_____________________

Amor

Quem diz que Amor é falso ou enganoso,
Ligeiro, ingrato, vão, desconhecido,
Sem falta lhe terá bem merecido
Que lhe seja cruel ou rigoroso.

Amor é brando, é doce e é piedoso.
Quem o contrário diz não seja crido;
Seja por cego e apaixonado tido,
E aos homens, e inda aos deuses, odioso.

Se males faz Amor, em mi se vêem;
Em mi mostrando todo o seu rigor,
Ao mundo quis mostrar quanto podia.

Mas todas suas iras são de Amor;
Todos estes seus males são um bem,
Que eu por todo outro bem não trocaria.

Camões

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Histórico



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Não aprendi a colher a flor
sem esfacelar as pétalas.
Falta-me o dedo menino
de quem costura desfiladeiros.

Criança, eu sabia
suspender o tempo,
soterrar abismos
e nomear as estrelas.
Cresci,
perdi pontes,
esqueci sortilégios.

Careço da habilidade da onda,
hei-de aprender a carícia da brisa.

Trémula, a haste
me pede
o adiar da noite.

Em véspera da dádiva,
a faca me recorda, no gume do beijo,
a aresta do adeus.

Não, não aprenderei
nunca a decepar flores.

Quem sabe, um dia,
eu, em mim, colha um jardim?

Mia Couto

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A noite desce...

Como pálpebras roxas que tombassem
Sobre uns olhos cansados, carinhosas,
A noite desce... Ah! doces mãos piedosas
Que os meus olhos tristíssimos fechassem!

Assim mãos de bondade me beijassem!
Assim me adormecessem! Caridosas
Em braçados de lírios, de mimosas,
No crepúsculo que desce me enterrassem!

A noite em sombra e fumo se desfaz...
Perfume de baunilha ou de lilás,
A noite põe embriagada, louca!

E a noite vai descendo, sempre calma...
Meu doce Amor tu beijas a minh'alma
Beijando nesta hora a minha boca!

Florbela Espanca

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O jardim e a noite

Atravessei o jardim solitário e sem lua,
Correndo ao vento pelos caminhos fora,
Para tentar como outrora
Unir a minha alma à tua,
Ó grande noite solitária e sonhadora.

Entre os canteiro cercados de buxo,
Sorri à sombra tremendo de medo.
De joelhos na terra abri o repuxo,
E os meus gestos foram gestos de bruxedo.
Foram os gestos dessa encantação,
Que devia acordar do seu inquieto sono
A terra negra dos canteiros
E os meus sonhos sepultados
Vivos e inteiros.

Mas sob o peso dos narcisos floridos
Calou-se a terra,
E sob o peso dos frutos ressequidos
Do presente,
calaram-se os meus sonhos perdidos.

Entre os canteiros cercados de buxo,
Enquanto subia e caía a água do repuxo,
Murmurei as palavras em que outrora
Para mim sempre existia
O gesto dum impulso.

Palavras que eu despi da sua literatura,
Para lhes dar a sua forma primitiva e pura,
De fórmulas de magia.

Docemente a sonhar entre a folhagem
A noite solitária e pura
Continuou distante e intangível
Sem me deixar penetrar no seu segredo.
E eu senti quebrar-se, cair desfeita,
A minha ânsia carregada de impossível,
Contra a sua harmonia perfeita.

Tomei nas minhas mãos a sombra escura
E embalei o silêncio nos meus ombros.
Tudo em minha volta estava vivo
Mas nada pôde acordar dos seus escombros
O meu grande êxtase perdido.

Só o vento passou pesado e quente
E à sua volta todo o jardim cantou
E a água do tanque tremendo
Se maravilhou
Em círculos, longamente.


Sophia de M.B. Andresen

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A Terra

Também eu quero abrir-te e
semear
Um grão de poesia no teu
seio!
Anda tudo a lavrar,
Tudo a enterrar centeio,
E são horas de eu pôr a
germinar
A semente dos versos que
granjeio.

Na seara madura de amanhã
Sem fronteiras nem dono,
Há de existir a praga da
milhã,
A volúpia do sono
Da papoula vermelha e
temporã,
E o alegre abandono
De uma cigarra vã.

Mas das asas que agite,
O poema que cante
Será graça e limite
Do pendão que levante
A fé que a tua força
ressuscite!

Casou-nos Deus, o mito!
E cada imagem que me vem
É um gomo teu, ou um
grito
Que eu apenas repito
Na melodia que o poema
tem.

Terra, minha aliada
Na criação!
Seja fecunda a vessada,
Seja à tona do chão,
Nada fecundas, nada,
Que eu não fermente
também de inspiração!

E por isso te rasgo de
magia
E te lanço nos braços
a colheita
Que hás de parir depois...
Poesia desfeita,
Fruto maduro de nós dois.

Terra, minha mulher!
Um amor é o aceno,
Outro a quentura que se
quer
Dentro dum corpo nu,
moreno!

A charrua das leivas
não concebe
Uma bolota que não dê
carvalhos;
A minha, planta orvalhos...
Água que a manhã bebe
No pudor dos atalhos.

Terra, minha canção!
Ode de pólo a pólo
erguida
Pela beleza que não sabe
a pão
Mas ao gosto da vida!

Miguel Torga

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Ao Mar

Água, sal e vontade – a vida!
Azul – a cor do céu e da
inocência.
Um lenço a colorir a despedida
Da galera da ausência…

Mar tenebroso!
Mar fechado e rugoso
Sobre um casto jardim
adormecido!
Mar de medusas que ninguém
semeia,
Criadas com mistério e com
areia,
Perfeitas de beleza e de
sentido!

Vem a sede da terra e não se
acalma!
Vem a força do mundo e não te
doma!
Impenitente e funda, a tua
alma
Guarda-se no cristal duma
redoma.
Guarda-se purificada em
leve espuma,
Renda da sua túnica de linho.
Guarda-se aberta em sol,
sagrada em bruma,
Sem amor, sem ternura e sem
caminho.

O navio do sonho foi ao fundo,
E o capitão, despido, jaz ao
leme,
Branco nos ossos descarnados;
Uma alga no peito, a flor do
mundo,
Uma fibra de amor que vive
e treme
De ouvir segredos vãos,
petrificados.

Uma ilusão enfuna e enxuga
a vela,
Uma desilusão a rasga e molha;
Morta a magia que pintava
a tela,
O mesmo olhar de há pouco já
não olha.

Na órbita vazia um cego ouriço
Pica o silêncio leve que
perpassa…
Pica o novo feitiço
Que nasce do final de uma
desgraça.

Mas nem corais, nem polvos, nem
quimeras
Sobem à tona das marés…
O navio encalhado
e as suas eras
Lá permanecem a milhentos pés.

Soterrados em verde, negro
e vago,
Nenhum sol os aquece.
Habitantes do lago
Do esquecimento, só a sombra
os tece…

Ela que és tu, anónimo oceano,
Coração ciumento e namorado!
Ela que és tu, arfar viril
e plano,
Largo como um abraço descuidado!

Tu, mar fechado, aberto
e descoberto
Com bússolas e gritos de
gajeiro!
Tu, mar salgado, lírico, coberto
De lágrimas, iodo e nevoeiro!

Miguel Torga

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Rosa

Rosa em verso, rosa em prosa:
rosa rosa.
Verdadeira, recortada,
sempre votiva é a rosa.
Quem a dá, quem a ostenta,
quem a colhe, quem a inventa,
quem dela - a rosa - se lembra
faz o voto de quebrar
a pessoal solidão.
Se não troco o pão por rosas,
não troco a rosa por pão.

Alexandre Oneill

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Amar e ser amado

Amar e ser amado! Com que anelo
Com quanto ardor este adorado sonho
Acalentei em meu delírio ardente
Por essas doces noites de desveio!

Ser amado por ti, o teu alento
A bafejar-me a abrasadora frente!
E, teus olhos mirar meu pensamento,
P'ra tão puro e celeste sentimento:

Ver nossas vidas quais dois mansos rios,
Juntos, juntos perderem-se no oceano
Beijar teus dedos em delírio insano

Nossas almas unidas, nosso alento,
Confundindo também, amante - amado -
Como um anjo feliz... que pensamento

Castro Alves

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Na ilha por vezes habitada

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

Saramago

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Lira romantiquinha

Por que me trancas
o rosto e o sorriso
e assim me arrancas
do paraíso?

Por que não queres
deixando o alarme
( ai, Deus: mulheres)
acarinhar-me?

Por que cultivas
as sem-perfume
e agressivas
flores do ciúme?

Acaso ignoras
que te amo tanto,
todas as horas,
já nem sei quanto?

Visto que em suma
é todo teu,
de mais nenhuma
o peito meu?

Anjo sem fé
nas minhas juras
porque é que é
que me angusturas?

Minh'alma chove
frio e tristinho
não te comove
este versinho?

Carlos Drummond de Andrade

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Te amo


Te amo de uma maneira inexplicável
de uma forma inconfessável
de um modo contraditório

Te amo com meus estados de ânimo que são muitos
e mudam de humor continuadamente
pelo que você já sabe

o tempo
a vida
a morte

Te amo
com o mundo que não entendo
com a gente que não compreende
com a ambivalência de minha alma
com a incoerência dos meus atos
com a fatalidade do destino
com a conspiração do desejo
com a ambiguidade dos fatos

Ainda quando digo que não te amo, te amo
até quando te engano, não te engano
no fundo levo a cabo um plano
para amar-te melhor.

Te amo

sem refletir, inconscientemente
irresponsavelmente, espontaneamente
involuntariamente, por instinto
por impulso, irracionalmente

De fato não tenho argumentos lógicos
nem sequer improvisados
para fundamentar este amor que sinto por ti
que surgiu misteriosamente do nada

que não resolveu magicamente nada
e que milagrosamente, pouco a pouco, com pouco e nada,
tem melhorado o pior de mim.

Te amo

Te amo com um corpo que não pensa
com um coração que não raciocina
com uma cabeça que não coordena

Te amo incompreensivelmente
sem perguntar-me porque te amo
sem importar-me porque te amo
sem questionar-me porque te amo

Te amo
sinceramente porque te amo
eu mesmo não sei porque te amo.

Pablo Neruda

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Ontem

As fendas nas quais cultivavas
meus sorrisos
eram ideogramas de leituras
não feitas
por minhas inconciliáveis
palavras,
margem de pus e suor em meu
peito

Ainda

Do lado de lá circulavam
manhãs
quando eu tardia pioneira do
nada
abria a mochila de meus
sentimentos
e via voar sem um mínimo de
pressa
faíscas molestadas por minhas
asas,
plumas seduzidas em
alinhamento idôneo,
verão calvo de um sol desfeito

Mas

Nada tendo de nada que sei
e do que sei tendo nada,
apenas carreguei mãos abertas
a benzer teus olhos com
loucura
meio a razão e a tentação

Agora

Dou-te sem medo do que não
sei
minhas horas vividas,
vindouras.
Faz tempo ... um dia eu
serenei...
Hoje orvalho sendas...
Por zelo leva a faixa à vida.
Prossigas!

Eliane Alcântara

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Poema de amor

Vasa-me os olhos e eu poderei ver-te
Destrói-me os ouvidos e eu poderei ouvir-te
Mesmo sem pés poderei chegar a ti
Mesmo sem boca poderei conjurar-te
Corta-me os braços adorar-te-ei
Com os braços com as mãos
No coração latejará o meu cérebro
E se incendiares o meu cérebro
Guardar-te-ei ainda no meu sangue

Rainer Maria Rilke

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A (mar)

...
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia,
depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos.
E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor,
que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar,
tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
- Me ajuda a olhar!"

Eduardo Galeano

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Mar Absoluto


Foi desde sempre o mar,
E multidões passadas me empurravam
como o barco esquecido.

Agora recordo que falavam
da revolta dos ventos,
de linhos, de cordas, de ferros,
de sereias dadas à costa.

E o rosto de meus avós estava caído
pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas,
e pelos mares do Norte, duros de gelo.

Então, é comigo que falam,
sou eu que devo ir.
Porque não há ninguém,
tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.

E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
Tenho de levar-lhes redes de rezas,
campos convertidos em velas,
barcas sobrenaturais
com peixes mensageiros
e cantos náuticos.

E fico tonta.
acordada de repente nas praias tumultuosas.
E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos.
"Para adiante! Pelo mar largo!
Livrando o corpo da lição da areia!
Ao mar! - Disciplina humana para a empresa da vida!"
Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
A solidez da terra, monótona,
parece-mos fraca ilusão.
Queremos a ilusão grande do mar,
multiplicada em suas malhas de perigo.

Queremos a sua solidão robusta,
uma solidão para todos os lados,
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo,
e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.

O alento heróico do mar tem seu pólo secreto,
que os homens sentem, seduzidos e medrosos.

O mar é só mar, desprovido de apegos,
matando-se e recuperando-se,
correndo como um touro azul por sua própria sombra,
e arremetendo com bravura contra ninguém,
e sendo depois a pura sombra de si mesmo,
por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.

Não precisa do destino fixo da terra,
ele que, ao mesmo tempo,
é o dançarino e a sua dança.

Tem um reino de metamorfose, para experiência:
seu corpo é o seu próprio jogo,
e sua eternidade lúdica
não apenas gratuita: mas perfeita.

Baralha seus altos contrastes:
cavalo, épico, anêmona suave,
entrega-se todos, despreza ritmo
jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, mas é desfolhado,
cego, nu, dono apenas de si,
da sua terminante grandeza despojada.

Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões:
água de todas as possibilidades,
mas sem fraqueza nenhuma.

E assim como água fala-me.
Atira-me búzios, como lembranças de sua voz,
e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.

Não me chama para que siga por cima dele,
nem por dentro de si:
mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom.
Não me quer arrastar como meus tios outrora,
nem lentamente conduzida.
como meus avós, de serenos olhos certeiros.

Aceita-me apenas convertida em sua natureza:
plástica, fluida, disponível,
igual a ele, em constante solilóquio,
sem exigências de princípio e fim,
desprendida de terra e céu.

E eu, que viera cautelosa,
por procurar gente passada,
suspeito que me enganei,
que há outras ordens, que não foram ouvidas;
que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos,
e o mar a que me mandam não é apenas este mar.

Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças,
mas outro, que se parece com ele
como se parecem os vultos dos sonhos dormidos.
E entre água e estrela estudo a solidão.

E recordo minha herança de cordas e âncoras,
e encontro tudo sobre-humano.
E este mar visível levanta para mim
uma face espantosa.

E retrai-se, ao dizer-me o que preciso.
E é logo uma pequena concha fervilhante,
nódoa líquida e instável,
célula azul sumindo-se
no reino de um outro mar:
ah! do Mar Absoluto.

Cecilia Meirelles

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O mar

Conheço teu agitado marulho
tua voz de barítono
conheço tua zangada pronúncia
tuas lanças arrojadas pelos braços da tormenta
conheço tua suave dança
na onda calma e inumerável
na  crista transformada em súbita canção de espumas
conheço-te na beleza da baía amanhecida
na hora melancólica do crepúsculo
e no teu dorso enluarado.

Me deste a paisagem das águas litorâneas
e a espuma se estendendo sobre a areia
me mostraste a nudez e o encanto das praias solitárias 
a preamar e a vazante
e o teu perfil de mastros e gaivotas
me deste a magia do horizonte
uma vela solta ao vento
e um barco de papel para os meus sonhos
mas nunca me mostraste
a extensão azul dos teus domínios
e nem um indício sequer dos teus enigmas.

Marinheiro sem mar e sem destino
nunca pude navegar tuas distâncias.
Deste banquete
me deste apenas o paladar salgado dos meus versos
minha sílaba de sal
e a tua própria essência salpicada entre meus dedos
molécula elementar
unânime cristal
para que na minha dieta imprescindível
eu possa provar teu sabor todos os dias.

Manoel de Andrade

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Quero

Quero
Nos teus quartos forrados de luar
Onde nenhum dos meus gestos faz barulho
Voltar.
E sentar-me um instante
Na beira da janela contra os astros
E olhando para dentro contemplar-te,
Tu dormindo antes de jamais teres acordado,
Tu como um rio adormecido e doce
Seguindo a voz do vento e a voz do mar
Subindo as escadas que sobem pelo ar.

Sophia de Mello Breyner Andresen

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El mar

NECESITO del mar porque me enseña:
no sé si aprendo música o conciencia:
no sé si es ola sola o ser profundo
o sólo ronca voz o deslumbrante
suposición de peces y navios.
El hecho es que hasta cuando estoy dormido
de algún modo magnético circulo
en la universidad del oleaje.
No son sólo las conchas trituradas
como si algún planeta tembloroso
participara paulatina muerte,
no, del fragmento reconstruyo el día,
de una racha de sal la estalactita
y de una cucharada el dios inmenso.

Lo que antes me enseñó lo guardo! Es aire,
incesante viento, agua y arena.

Parece poco para el hombre joven
que aquí llegó a vivir con sus incendios,
y sin embargo el pulso que subía
y bajaba a su abismo,
el frío del azul que crepitaba,
el desmoronamiento de la estrella,
el tierno desplegarse de la ola
despilfarrando nieve con la espuma,
el poder quieto, allí, determinado
como un trono de piedra en lo profundo,
substituyó el recinto en que crecían
tristeza terca, amontonando olvido,
y cambió bruscamente mi existencia:
di mi adhesión al puro movimiento.

Pablo Neruda

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Tarde no mar

A tarde é de oiro rótilo: esbraseia.
O horizonte: um cacto purpurino.
E a vaga esbelta que palpita e ondeia,
Com uma frágil graça de menino,

Pousa o manto de arminho na areia
E lá vai, e lá segue o seu destino!
E o sol, nas casas brancas que incendeia,
Desenha mãos sangrentas de assassino!

Que linda tarde aberta sobre o mar!
Vai deitando do céu molhos de rosas
Que Apolo se entretém a desfolhar

E, sobre mim, em gestos palpitantes,
As tuas mãos morenas, milagrosas,
São as asas do sol, agonizantes...

Florbela Espanca

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