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"...para ti eu criarei um dia puro...livre como o vento e repetido como o florir das ondas ordenadas. "
Sophia de M.B. Andrensen
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Tu já tinhas um nome, e eu não sei se eras fonte ou brisa ou mar ou flor. Nos meus versos chamar-te-ei. Amor...
Eugénio de Andrade
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Sejam Benvindos(as)...
Canção do amor rasgado
Danilo Caymmi>
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Serenamente
Aqui serenamente sou feliz sem qualquer memória do passado
sem qualquer cansaço mascarado ou trevas que encubram qualquer escombro
de ti tudo o que vem é quente e súbito
da tua voz amor do nosso encontro único
Maria Teresa Horta
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Soneto da Fidelidade
De tudo ao meu amor serei atento Antes e com tal zelo e sempre e tanto Que mesmo em face do maior encanto Dele se encante mais meu pensamento
Quero vive-lo em cada vão momento E em seu louvor hei de espalhar meu canto E rir meu riso e derramar meu pranto Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim quando mais tarde me procure Quem sabe a morte, angústia de quem vive Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa lhe dizer do amor que tive Que não seja imortal, posto que é chama Mas, que seja infinito enquanto dure.
Vinícius de Moraes
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Amor
Quem diz que Amor é falso ou enganoso, Ligeiro, ingrato, vão, desconhecido, Sem falta lhe terá bem merecido Que lhe seja cruel ou rigoroso.
Amor é brando, é doce e é piedoso. Quem o contrário diz não seja crido; Seja por cego e apaixonado tido, E aos homens, e inda aos deuses, odioso.
Se males faz Amor, em mi se vêem; Em mi mostrando todo o seu rigor, Ao mundo quis mostrar quanto podia.
Mas todas suas iras são de Amor; Todos estes seus males são um bem, Que eu por todo outro bem não trocaria.
Camões
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Não aprendi a colher a flor sem esfacelar as pétalas. Falta-me o dedo menino de quem costura desfiladeiros.
Criança, eu sabia suspender o tempo, soterrar abismos e nomear as estrelas. Cresci, perdi pontes, esqueci sortilégios.
Careço da habilidade da onda, hei-de aprender a carícia da brisa.
Trémula, a haste me pede o adiar da noite.
Em véspera da dádiva, a faca me recorda, no gume do beijo, a aresta do adeus.
Não, não aprenderei nunca a decepar flores.
Quem sabe, um dia, eu, em mim, colha um jardim?
Mia Couto
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A noite desce...
Como pálpebras roxas que tombassem Sobre uns olhos cansados, carinhosas, A noite desce... Ah! doces mãos piedosas Que os meus olhos tristíssimos fechassem!
Assim mãos de bondade me beijassem! Assim me adormecessem! Caridosas Em braçados de lírios, de mimosas, No crepúsculo que desce me enterrassem!
A noite em sombra e fumo se desfaz... Perfume de baunilha ou de lilás, A noite põe embriagada, louca!
E a noite vai descendo, sempre calma... Meu doce Amor tu beijas a minh'alma Beijando nesta hora a minha boca!
Florbela Espanca
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O jardim e a noite
Atravessei o jardim solitário e sem lua, Correndo ao vento pelos caminhos fora, Para tentar como outrora Unir a minha alma à tua, Ó grande noite solitária e sonhadora.
Entre os canteiro cercados de buxo, Sorri à sombra tremendo de medo. De joelhos na terra abri o repuxo, E os meus gestos foram gestos de bruxedo. Foram os gestos dessa encantação, Que devia acordar do seu inquieto sono A terra negra dos canteiros E os meus sonhos sepultados Vivos e inteiros.
Mas sob o peso dos narcisos floridos Calou-se a terra, E sob o peso dos frutos ressequidos Do presente, calaram-se os meus sonhos perdidos.
Entre os canteiros cercados de buxo, Enquanto subia e caía a água do repuxo, Murmurei as palavras em que outrora Para mim sempre existia O gesto dum impulso.
Palavras que eu despi da sua literatura, Para lhes dar a sua forma primitiva e pura, De fórmulas de magia.
Docemente a sonhar entre a folhagem A noite solitária e pura Continuou distante e intangível Sem me deixar penetrar no seu segredo. E eu senti quebrar-se, cair desfeita, A minha ânsia carregada de impossível, Contra a sua harmonia perfeita.
Tomei nas minhas mãos a sombra escura E embalei o silêncio nos meus ombros. Tudo em minha volta estava vivo Mas nada pôde acordar dos seus escombros O meu grande êxtase perdido.
Só o vento passou pesado e quente E à sua volta todo o jardim cantou E a água do tanque tremendo Se maravilhou Em círculos, longamente.
Sophia de M.B. Andresen
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A Terra
Também eu quero abrir-te e semear Um grão de poesia no teu seio! Anda tudo a lavrar, Tudo a enterrar centeio, E são horas de eu pôr a germinar A semente dos versos que granjeio.
Na seara madura de amanhã Sem fronteiras nem dono, Há de existir a praga da milhã, A volúpia do sono Da papoula vermelha e temporã, E o alegre abandono De uma cigarra vã.
Mas das asas que agite, O poema que cante Será graça e limite Do pendão que levante A fé que a tua força ressuscite!
Casou-nos Deus, o mito! E cada imagem que me vem É um gomo teu, ou um grito Que eu apenas repito Na melodia que o poema tem.
Terra, minha aliada Na criação! Seja fecunda a vessada, Seja à tona do chão, Nada fecundas, nada, Que eu não fermente também de inspiração!
E por isso te rasgo de magia E te lanço nos braços a colheita Que hás de parir depois... Poesia desfeita, Fruto maduro de nós dois.
Terra, minha mulher! Um amor é o aceno, Outro a quentura que se quer Dentro dum corpo nu, moreno!
A charrua das leivas não concebe Uma bolota que não dê carvalhos; A minha, planta orvalhos... Água que a manhã bebe No pudor dos atalhos.
Terra, minha canção! Ode de pólo a pólo erguida Pela beleza que não sabe a pão Mas ao gosto da vida!
Miguel Torga
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Ao Mar
Água, sal e vontade – a vida! Azul – a cor do céu e da inocência. Um lenço a colorir a despedida Da galera da ausência…
Mar tenebroso! Mar fechado e rugoso Sobre um casto jardim adormecido! Mar de medusas que ninguém semeia, Criadas com mistério e com areia, Perfeitas de beleza e de sentido!
Vem a sede da terra e não se acalma! Vem a força do mundo e não te doma! Impenitente e funda, a tua alma Guarda-se no cristal duma redoma. Guarda-se purificada em leve espuma, Renda da sua túnica de linho. Guarda-se aberta em sol, sagrada em bruma, Sem amor, sem ternura e sem caminho.
O navio do sonho foi ao fundo, E o capitão, despido, jaz ao leme, Branco nos ossos descarnados; Uma alga no peito, a flor do mundo, Uma fibra de amor que vive e treme De ouvir segredos vãos, petrificados.
Uma ilusão enfuna e enxuga a vela, Uma desilusão a rasga e molha; Morta a magia que pintava a tela, O mesmo olhar de há pouco já não olha.
Na órbita vazia um cego ouriço Pica o silêncio leve que perpassa… Pica o novo feitiço Que nasce do final de uma desgraça.
Mas nem corais, nem polvos, nem quimeras Sobem à tona das marés… O navio encalhado e as suas eras Lá permanecem a milhentos pés.
Soterrados em verde, negro e vago, Nenhum sol os aquece. Habitantes do lago Do esquecimento, só a sombra os tece…
Ela que és tu, anónimo oceano, Coração ciumento e namorado! Ela que és tu, arfar viril e plano, Largo como um abraço descuidado!
Tu, mar fechado, aberto e descoberto Com bússolas e gritos de gajeiro! Tu, mar salgado, lírico, coberto De lágrimas, iodo e nevoeiro!
Miguel Torga
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Rosa
Rosa em verso, rosa em prosa: rosa rosa. Verdadeira, recortada, sempre votiva é a rosa. Quem a dá, quem a ostenta, quem a colhe, quem a inventa, quem dela - a rosa - se lembra faz o voto de quebrar a pessoal solidão. Se não troco o pão por rosas, não troco a rosa por pão.
Alexandre Oneill
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Amar e ser amado
Amar e ser amado! Com que anelo Com quanto ardor este adorado sonho Acalentei em meu delírio ardente Por essas doces noites de desveio!
Ser amado por ti, o teu alento A bafejar-me a abrasadora frente! E, teus olhos mirar meu pensamento, P'ra tão puro e celeste sentimento:
Ver nossas vidas quais dois mansos rios, Juntos, juntos perderem-se no oceano Beijar teus dedos em delírio insano
Nossas almas unidas, nosso alento, Confundindo também, amante - amado - Como um anjo feliz... que pensamento
Castro Alves
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Na ilha por vezes habitada
Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites, manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer. Então sabemos tudo do que foi e será. O mundo aparece explicado definitivamente e entra em nós uma grande serenidade, e dizem-se as palavras que a significam. Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos. Com doçura. Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a vontade e os limites. Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos ossos dela. Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres como a água, a pedra e a raiz. Cada um de nós é por enquanto a vida. Isso nos baste.
Saramago
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Lira romantiquinha
Por que me trancas o rosto e o sorriso e assim me arrancas do paraíso?
Por que não queres deixando o alarme ( ai, Deus: mulheres) acarinhar-me?
Por que cultivas as sem-perfume e agressivas flores do ciúme?
Acaso ignoras que te amo tanto, todas as horas, já nem sei quanto?
Visto que em suma é todo teu, de mais nenhuma o peito meu?
Anjo sem fé nas minhas juras porque é que é que me angusturas?
Minh'alma chove frio e tristinho não te comove este versinho?
Carlos Drummond de Andrade
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Te amo
Te amo de uma maneira inexplicável de uma forma inconfessável de um modo contraditório
Te amo com meus estados de ânimo que são muitos e mudam de humor continuadamente pelo que você já sabe
o tempo a vida a morte
Te amo com o mundo que não entendo com a gente que não compreende com a ambivalência de minha alma com a incoerência dos meus atos com a fatalidade do destino com a conspiração do desejo com a ambiguidade dos fatos
Ainda quando digo que não te amo, te amo até quando te engano, não te engano no fundo levo a cabo um plano para amar-te melhor.
Te amo
sem refletir, inconscientemente irresponsavelmente, espontaneamente involuntariamente, por instinto por impulso, irracionalmente
De fato não tenho argumentos lógicos nem sequer improvisados para fundamentar este amor que sinto por ti que surgiu misteriosamente do nada
que não resolveu magicamente nada e que milagrosamente, pouco a pouco, com pouco e nada, tem melhorado o pior de mim.
Te amo
Te amo com um corpo que não pensa com um coração que não raciocina com uma cabeça que não coordena
Te amo incompreensivelmente sem perguntar-me porque te amo sem importar-me porque te amo sem questionar-me porque te amo
Te amo sinceramente porque te amo eu mesmo não sei porque te amo.
Pablo Neruda
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Ontem
As fendas nas quais cultivavas meus sorrisos eram ideogramas de leituras não feitas por minhas inconciliáveis palavras, margem de pus e suor em meu peito
Ainda
Do lado de lá circulavam manhãs quando eu tardia pioneira do nada abria a mochila de meus sentimentos e via voar sem um mínimo de pressa faíscas molestadas por minhas asas, plumas seduzidas em alinhamento idôneo, verão calvo de um sol desfeito
Mas
Nada tendo de nada que sei e do que sei tendo nada, apenas carreguei mãos abertas a benzer teus olhos com loucura meio a razão e a tentação
Agora
Dou-te sem medo do que não sei minhas horas vividas, vindouras. Faz tempo ... um dia eu serenei... Hoje orvalho sendas... Por zelo leva a faixa à vida. Prossigas!
Eliane Alcântara
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Poema de amor
Vasa-me os olhos e eu poderei ver-te Destrói-me os ouvidos e eu poderei ouvir-te Mesmo sem pés poderei chegar a ti Mesmo sem boca poderei conjurar-te Corta-me os braços adorar-te-ei Com os braços com as mãos No coração latejará o meu cérebro E se incendiares o meu cérebro Guardar-te-ei ainda no meu sangue
Rainer Maria Rilke
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A (mar)
... Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: - Me ajuda a olhar!"
Eduardo Galeano
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Mar Absoluto
Foi desde sempre o mar, E multidões passadas me empurravam como o barco esquecido.
Agora recordo que falavam da revolta dos ventos, de linhos, de cordas, de ferros, de sereias dadas à costa.
E o rosto de meus avós estava caído pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas, e pelos mares do Norte, duros de gelo.
Então, é comigo que falam, sou eu que devo ir. Porque não há ninguém, tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.
E tenho de procurar meus tios remotos afogados. Tenho de levar-lhes redes de rezas, campos convertidos em velas, barcas sobrenaturais com peixes mensageiros e cantos náuticos.
E fico tonta. acordada de repente nas praias tumultuosas. E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos. "Para adiante! Pelo mar largo! Livrando o corpo da lição da areia! Ao mar! - Disciplina humana para a empresa da vida!" Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas. A solidez da terra, monótona, parece-mos fraca ilusão. Queremos a ilusão grande do mar, multiplicada em suas malhas de perigo.
Queremos a sua solidão robusta, uma solidão para todos os lados, uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo, e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.
O alento heróico do mar tem seu pólo secreto, que os homens sentem, seduzidos e medrosos.
O mar é só mar, desprovido de apegos, matando-se e recuperando-se, correndo como um touro azul por sua própria sombra, e arremetendo com bravura contra ninguém, e sendo depois a pura sombra de si mesmo, por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.
Não precisa do destino fixo da terra, ele que, ao mesmo tempo, é o dançarino e a sua dança.
Tem um reino de metamorfose, para experiência: seu corpo é o seu próprio jogo, e sua eternidade lúdica não apenas gratuita: mas perfeita.
Baralha seus altos contrastes: cavalo, épico, anêmona suave, entrega-se todos, despreza ritmo jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, mas é desfolhado, cego, nu, dono apenas de si, da sua terminante grandeza despojada.
Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões: água de todas as possibilidades, mas sem fraqueza nenhuma.
E assim como água fala-me. Atira-me búzios, como lembranças de sua voz, e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.
Não me chama para que siga por cima dele, nem por dentro de si: mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom. Não me quer arrastar como meus tios outrora, nem lentamente conduzida. como meus avós, de serenos olhos certeiros.
Aceita-me apenas convertida em sua natureza: plástica, fluida, disponível, igual a ele, em constante solilóquio, sem exigências de princípio e fim, desprendida de terra e céu.
E eu, que viera cautelosa, por procurar gente passada, suspeito que me enganei, que há outras ordens, que não foram ouvidas; que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos, e o mar a que me mandam não é apenas este mar.
Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças, mas outro, que se parece com ele como se parecem os vultos dos sonhos dormidos. E entre água e estrela estudo a solidão.
E recordo minha herança de cordas e âncoras, e encontro tudo sobre-humano. E este mar visível levanta para mim uma face espantosa.
E retrai-se, ao dizer-me o que preciso. E é logo uma pequena concha fervilhante, nódoa líquida e instável, célula azul sumindo-se no reino de um outro mar: ah! do Mar Absoluto.
Cecilia Meirelles
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O mar
Conheço teu agitado marulho tua voz de barítono conheço tua zangada pronúncia tuas lanças arrojadas pelos braços da tormenta conheço tua suave dança na onda calma e inumerável na crista transformada em súbita canção de espumas conheço-te na beleza da baía amanhecida na hora melancólica do crepúsculo e no teu dorso enluarado.
Me deste a paisagem das águas litorâneas e a espuma se estendendo sobre a areia me mostraste a nudez e o encanto das praias solitárias a preamar e a vazante e o teu perfil de mastros e gaivotas me deste a magia do horizonte uma vela solta ao vento e um barco de papel para os meus sonhos mas nunca me mostraste a extensão azul dos teus domínios e nem um indício sequer dos teus enigmas.
Marinheiro sem mar e sem destino nunca pude navegar tuas distâncias. Deste banquete me deste apenas o paladar salgado dos meus versos minha sílaba de sal e a tua própria essência salpicada entre meus dedos molécula elementar unânime cristal para que na minha dieta imprescindível eu possa provar teu sabor todos os dias.
Manoel de Andrade
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Quero
Quero Nos teus quartos forrados de luar Onde nenhum dos meus gestos faz barulho Voltar. E sentar-me um instante Na beira da janela contra os astros E olhando para dentro contemplar-te, Tu dormindo antes de jamais teres acordado, Tu como um rio adormecido e doce Seguindo a voz do vento e a voz do mar Subindo as escadas que sobem pelo ar.
Sophia de Mello Breyner Andresen
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El mar
NECESITO del mar porque me enseña: no sé si aprendo música o conciencia: no sé si es ola sola o ser profundo o sólo ronca voz o deslumbrante suposición de peces y navios. El hecho es que hasta cuando estoy dormido de algún modo magnético circulo en la universidad del oleaje. No son sólo las conchas trituradas como si algún planeta tembloroso participara paulatina muerte, no, del fragmento reconstruyo el día, de una racha de sal la estalactita y de una cucharada el dios inmenso.
Lo que antes me enseñó lo guardo! Es aire, incesante viento, agua y arena.
Parece poco para el hombre joven que aquí llegó a vivir con sus incendios, y sin embargo el pulso que subía y bajaba a su abismo, el frío del azul que crepitaba, el desmoronamiento de la estrella, el tierno desplegarse de la ola despilfarrando nieve con la espuma, el poder quieto, allí, determinado como un trono de piedra en lo profundo, substituyó el recinto en que crecían tristeza terca, amontonando olvido, y cambió bruscamente mi existencia: di mi adhesión al puro movimiento.
Pablo Neruda
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Tarde no mar
A tarde é de oiro rótilo: esbraseia. O horizonte: um cacto purpurino. E a vaga esbelta que palpita e ondeia, Com uma frágil graça de menino,
Pousa o manto de arminho na areia E lá vai, e lá segue o seu destino! E o sol, nas casas brancas que incendeia, Desenha mãos sangrentas de assassino!
Que linda tarde aberta sobre o mar! Vai deitando do céu molhos de rosas Que Apolo se entretém a desfolhar
E, sobre mim, em gestos palpitantes, As tuas mãos morenas, milagrosas, São as asas do sol, agonizantes...
Florbela Espanca
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